A casa

Entrei na casa como se fosse minha, como se tivesse sido minha a vida inteira, como se eu a conhecesse a vida inteira. Passei pelos móveis que eu nunca tinha visto como se fossem meus, como se eu os tivesse escolhido com todo o cuidado do mundo de forma a compor uma decoração que nos parecia harmoniosa. Senti o cheiro que nunca havia sentido como se ele fizesse parte do meu ser. Me movimentei por ela no escuro por intuição, como se eu tivesse feito isso a vida inteira, como se eu tivesse todos os cantos e quinas guardados na memória. Não precisava nem olhar para saber que aquela casa era minha, que havia sido minha a vida inteira, por mais que só a estivesse conhecendo naquele momento. No mesmo segundo em que a vi no catálogo, soube que seria minha, que era minha, e nada poderia me convencer do contrário. Não a compraria, pois nunca me pertenceria. Não era uma aquisição, como todas as outras casas, simplesmente era minha. Havia sido construída minha, decorada minha. Todas as paredes furadas, onde já estiveram quadros que não eram meus, eram minhas. Todos os vazamentos, mofos, defeitos, por mais que não tivessem sido causados por mim, eram meus. E talvez eu nunca os conseguisse consertar, mas sempre seriam meus, para o resto da vida, e eu viveria com eles como se sempre tivessem sido meus. Não por comodismo, por preguiça de tentar consertá-los, porque eu tentaria, mas certas coisas sempre seriam parte daquela casa, e a casa era minha. Era minha do jeito que estava, era minha do jeito que era e que nem sempre foi, mas era só minha, apesar de não me pertencer.

A visita à casa foi um grande impulso, mas necessário, porque ela era minha, entende? Era minha, e eu precisava estar nela, era natural estar nela. E com o passar dos anos eu a destruiria mais e a consertaria mais ainda, eu viveria nela e ela viveria comigo como se tivesse sido assim desde o começo, porque tinha sido, apesar de só termos nos encontrado naquele momento. Era como se eu tivesse habitado aquela casa desde o começo, mesmo que meu corpo não estivesse lá e, conscientemente, eu não a conhecesse. Entrar naquela casa pela primeira vez era se sentir em paz, a paz que traz uma casa de infância que aparece em todas as fotos do álbum, com as marcações da sua altura no batente da porta, com os seus adesivos na janela, com os seus riscos na madeira. Estar na casa era ver um sorriso conhecido no meio de uma multidão, era conseguir respirar pela primeira vez após um quase ataque de pânico, era poder ignorar tudo que acontecia ao redor, tudo que acontecia no mundo, e não sentir nada além de amor.

E acho que a casa também sentia isso. Devia sentir, pois ela me recebeu de portas abertas, mesmo que ninguém tivesse a chave. Ela deixou suas paredes expandirem para se adequar à minha presença, ela me presenteou com móveis que ninguém nunca havia visto, que eram só nossos, ela me deixou entrar estando ciente de todos os danos que eu poderia causar a ela e que ela poderia causar a mim. Nós duas cientes de que, a partir daquele momento, viveríamos juntas com tudo que coubesse lá dentro, mesmo que nem tudo fosse escolha minha. Porque a casa não era só minha, era também dela mesma. Tinha vontades, tinha gostos, tinha uma história inteira para contar que não me incluía, apesar de sempre ter sido minha. Todas as histórias que ela viveu a prepararam para aquele instante, para o instante que eu entrei nela. E todas as histórias que eu vivi me levaram até aquela casa, sabendo que ela sempre tinha sido minha. E seria assim. A partir do momento em que as portas se abriram e que eu me joguei no abraço da casa, não havia mais volta. A partir daquele momento, nenhuma outra casa existia, nenhuma outra história importava mais, só a eu construiria dentro daquela casa e a que aquela casa construiria com a minha presença nela. E as duas histórias seriam, enfim, iguais.

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