A casa

Entrei na casa como se fosse minha, como se tivesse sido minha a vida inteira, como se eu a conhecesse a vida inteira. Passei pelos móveis que eu nunca tinha visto como se fossem meus, como se eu os tivesse escolhido com todo o cuidado do mundo de forma a compor uma decoração que nos parecia harmoniosa. Senti o cheiro que nunca havia sentido como se ele fizesse parte do meu ser. Me movimentei por ela no escuro por intuição, como se eu tivesse feito isso a vida inteira, como se eu tivesse todos os cantos e quinas guardados na memória. Não precisava nem olhar para saber que aquela casa era minha, que havia sido minha a vida inteira, por mais que só a estivesse conhecendo naquele momento. No mesmo segundo em que a vi no catálogo, soube que seria minha, que era minha, e nada poderia me convencer do contrário. Não a compraria, pois nunca me pertenceria. Não era uma aquisição, como todas as outras casas, simplesmente era minha. Havia sido construída minha, decorada minha. Todas as paredes furadas, onde já estiveram quadros que não eram meus, eram minhas. Todos os vazamentos, mofos, defeitos, por mais que não tivessem sido causados por mim, eram meus. E talvez eu nunca os conseguisse consertar, mas sempre seriam meus, para o resto da vida, e eu viveria com eles como se sempre tivessem sido meus. Não por comodismo, por preguiça de tentar consertá-los, porque eu tentaria, mas certas coisas sempre seriam parte daquela casa, e a casa era minha. Era minha do jeito que estava, era minha do jeito que era e que nem sempre foi, mas era só minha, apesar de não me pertencer.

A visita à casa foi um grande impulso, mas necessário, porque ela era minha, entende? Era minha, e eu precisava estar nela, era natural estar nela. E com o passar dos anos eu a destruiria mais e a consertaria mais ainda, eu viveria nela e ela viveria comigo como se tivesse sido assim desde o começo, porque tinha sido, apesar de só termos nos encontrado naquele momento. Era como se eu tivesse habitado aquela casa desde o começo, mesmo que meu corpo não estivesse lá e, conscientemente, eu não a conhecesse. Entrar naquela casa pela primeira vez era se sentir em paz, a paz que traz uma casa de infância que aparece em todas as fotos do álbum, com as marcações da sua altura no batente da porta, com os seus adesivos na janela, com os seus riscos na madeira. Estar na casa era ver um sorriso conhecido no meio de uma multidão, era conseguir respirar pela primeira vez após um quase ataque de pânico, era poder ignorar tudo que acontecia ao redor, tudo que acontecia no mundo, e não sentir nada além de amor.

E acho que a casa também sentia isso. Devia sentir, pois ela me recebeu de portas abertas, mesmo que ninguém tivesse a chave. Ela deixou suas paredes expandirem para se adequar à minha presença, ela me presenteou com móveis que ninguém nunca havia visto, que eram só nossos, ela me deixou entrar estando ciente de todos os danos que eu poderia causar a ela e que ela poderia causar a mim. Nós duas cientes de que, a partir daquele momento, viveríamos juntas com tudo que coubesse lá dentro, mesmo que nem tudo fosse escolha minha. Porque a casa não era só minha, era também dela mesma. Tinha vontades, tinha gostos, tinha uma história inteira para contar que não me incluía, apesar de sempre ter sido minha. Todas as histórias que ela viveu a prepararam para aquele instante, para o instante que eu entrei nela. E todas as histórias que eu vivi me levaram até aquela casa, sabendo que ela sempre tinha sido minha. E seria assim. A partir do momento em que as portas se abriram e que eu me joguei no abraço da casa, não havia mais volta. A partir daquele momento, nenhuma outra casa existia, nenhuma outra história importava mais, só a eu construiria dentro daquela casa e a que aquela casa construiria com a minha presença nela. E as duas histórias seriam, enfim, iguais.

Inner thoughts of a troubled mind

Às vezes sentir é estranho.

O que você quer dizer com isso?

Não sei.

É estranho.

É abstrato.

Definir sentimentos é como tentar fazer uma lista de mercado sem saber o que tem em casa. Não dá, não dá pra definir, não dá pra discernir. As palavras que existem não comportam os sentimentos, não chegam nem perto de transmitir o que verdadeiramente se passa.

Agora, por exemplo, poderia dizer que estou triste, mas não é isso, isso não define, entende?

É muito pessoal, não dá para comunicar.

E eu não confio em nada que não possa ser transposto em palavras.

O silêncio

Mais uma morte. De criança, dessa vez. Dessa vez? E que morte? Não morremos todo dia? Acho engraçado como buscamos tragédias com tanto afinco, como gostamos de correr atrás de tristezas. É quase como uma auto sabotagem. Acho que precisamos disso para nos lembrarmos de não sermos felizes. A felicidade consegue ser mais devastadora do que a tragédia, sabia? E buscamos a tragédia, buscamos o fim das coisas que nos fazem felizes, só para depois dizermos que a felicidade não existe, que algo sempre desaponta, deixa a desejar. Algo, nós mesmos, que diferença faz? Não acho que a tragédia não faça parte, só acho que esquecemos que os dias foram feitos para serem vividos e não classificados. Sentimentos, sensações, quaisquer que sejam, um dia de cada vez. Trabalho, dinheiro, cada vez mais coisa, infelizmente, e cada vez mais caro. Um prego meio entortado, já fora de forma, inútil. E o que mais nos tornamos se não um prego torto descartado? Ainda mais quando decidimos pensar por nós mesmos. Que absurdo! E inútil! Só se pode suportar o sistema, como um prego suporta um quadro, quando se tem claro na mente o motivo pelo qual nascemos, ou o motivo pelo qual querem que nós pensemos que nascemos. Mas está tudo em constante mudança. Eu, o mundo, o sistema. Acho que foi ontem que eu descobri. Cada dia me vem um som novo, uma visão, e nem sei mais distinguir o real do inventado (será que existe realidade? Lá vou eu com as classificações de novo). É bem mais fácil ter certeza. Certeza de que nascemos para brincar, estudar (mas não aprender, aprender já leva à incerteza), trabalhar, comprar, vender, morrer. Acho que foi aos vinte anos que tudo começou. Folhas caindo, o medo de ser pega, a onda que quase alcançava meus pés. Falta de dor, de amor, porque a falta é mais dolorosa do que qualquer coisa. A urgência da pressa e a vontade de serenidade. Um olhar, uma troca, troca recente de falta de quê, de frente ao mar. Vozes, carros, e mais falta. Falta que fazia o silêncio do mar, do vento e principalmente do olhar. Falta até mesmo da troca de toques, tão menos silenciosa. O mar avançava, alguém me chamava, o sal invadindo todas as partes, porque o pé não era mais suficiente. Precisava me deixar ser engolida. Pernas molhadas, barriga, peito, ouvidos, silêncio. A dor do frio, porque sem dor a gente não vive. Mas que tipo de dor? Assim? Talvez. Talvez a dor seja a vida. A dor da despedida, de um olhar trocado e nunca permitido. Mas não permitido por quem? Pelo sistema, era sempre essa a resposta. Ou talvez não permitido pela simples necessidade da dor, pela tal auto sabotagem. Acho que a gente se acostuma a pensar que a felicidade de pessoas que a gente nem conhece são mais importantes do que a nossa. Afinal, não queremos atrapalhar, né? Eu preciso sair daqui, preciso continuar aqui, entende? Estabilidade e mudança, os paradoxos da vida. Querer é fácil, difícil é tentar conseguir. Eu tentei, eu acho que tentei. Mais do que isso, eu consegui, por um tempo. Mas foi muito difícil. Você precisa entender que foi muito difícil. Você precisa entender que eu não quis, mas que eu sempre quis! Você precisa… Não, não! Eu preciso! Por uma vez na vida, eu preciso!

 

 

-Me dá a mão.

-Pra quê?

-Vem comigo, ué!

-Pra onde?

-Pra que tantas perguntas?

-Eu só quero saber pra onde a gente vai.

-Pra um lugar.

-Eu sei! Mas que tipo de lugar?

-Você vai ver quando a gente chegar.

-É melhor não…

-Você não quer ir?

-Não.

-Tudo bem, então. Você vem pra aula amanhã?

-Venho.

-Até mais.

Ela saiu com um sorriso. Eu lembro como se fosse hoje. Lembro como uma estranha se aproximou de mim e me pediu para ir com ela. Certo, não foi bem assim. Foi assim, mas ela não era bem uma estranha. Acho que fazia uns três meses que eu tinha me inscrito naquele curso, mas a gente nunca tinha se falado. Não usando palavras, pelo menos. Hoje entendo que para conversar, para gostar, não precisamos nem abrir a boca. Eu devia ter ido, queria ter ido. Mas acho que eu nem sabia disso na hora. É engraçado como algumas memórias surgem depois de certo tempo, de certos acontecimentos. Naquele dia eu fui para casa e foi como se nada de diferente tivesse acontecido. Ela tinha se aproximado de mim um pouco antes naquele mesmo dia, porque tinha que fazer alguma coisa em dupla, sem nem pedir permissão. Não consegui olhar nos olhos dela. Nunca conseguia fazer isso quando estava sozinha, vulnerável, num ambiente onde todos eram estranhos! E mal podia esperar para me ver longe daquela situação. Tchau, até amanhã. Mas ela veio atrás com aquele sorriso e parou do meu lado. Me dá a mão. Quem imaginaria?

 

No dia seguinte veio um telefonema inesperado. É sua mãe. Acho que nunca chorei tão pouco na vida, porque naquele momento o choro parecia ser superficial, supérfluo. O choque verdadeiro não causa choro, a dor de verdade é seca. Não tive coragem de falar com ninguém, me afastei de tudo, acho que passei uma semana trancada dentro de casa. E foi no final dessa semana que eu terminei com ele. Ainda hoje não sei por quê. Mas também aprendi a parar de procurar um motivo para as coisas. Ele voltou; afinal, ele sempre voltava. Mas não conseguia fazer a dor ir embora, talvez até trouxesse mais, daquele dia em diante. Passei uma semana longe da vida, mas voltei. Era necessário. A vida está sempre nos puxando de volta.

-Você tá bem?

Eu nem senti ela se aproximar, não vi que estava sentada ao meu lado. Depois olhei e acenei.

-Por que passou tanto tempo longe?

-Minha mãe morreu.

Foi a primeira vez que disse isso em voz alta, mas minhas palavras foram substituídas pelo silêncio. Ela só estendeu a mão, só precisou fazer isso. E eu fui, dessa vez eu fui. Entramos no carro e seguimos. Acho que demorou uma hora, ou um ano.

-O que é isso?

-Olha.

-Eu tô vendo. Mas não entendo.

-O que precisa entender?

-Por que me trouxe aqui?

-Vai fazer você se sentir melhor.

-Como? É um lago.

-É natureza. Ou queria que eu te levasse pra tomar sorvete?

Que raiva que me deu! Ainda mais quando seguido por aquele sorriso. Maldito sorriso. Mas a raiva maior foi por eu me sentir melhor. Foi por, depois de uma semana longe de qualquer tipo de contato, logo ela conseguir me fazer sentir melhor.

-Senta.

-No chão?

-Tá com medo de sujar a calça?

Sentei. Aprendi que com ela não se discute, nem se pergunta.

-Fecha os olhos.

Fechei.

-E agora?

-Para de perguntar, sente.

Foi naquele dia que eu senti. Senti o silêncio. Olhei para ela um pouco antes de fechar os olhos. Ela estava de olhos fechados, mas me olhava. Sabe como é essa sensação? Sabia que o que quer que havia dentro dela estava direcionado para mim naquele momento, mesmo no meio de toda aquela escuridão, e me senti bem. Aprendi que com ela bastava olhar, até mesmo de olhos fechados. Ela deitou e eu deitei do lado. Conseguia ver tudo aquilo que se estendia à minha frente, mesmo sem ver absolutamente nada. Conseguia sentir, conseguia cheirar. Meus sentidos se misturaram.

Ela tocou a minha mão. Tive medo. Mas continuei lá. Acho que dormi, porque só me lembro de abrir os olhos e ver o céu estrelado. Nossa, fazia muito tempo que eu não via estrelas! Que lugar era aquele? Levei meu marido lá uma vez. Ele acendeu um cigarro e, no fim, o jogou dentro do lago. Nunca mais voltamos. Ela me olhou e sorriu. Era muito comum, muito diferente, muito estranho. Mas me acalmava, umedecia a secura da dor.

 

Não se passaram muitos dias até que ela dissesse que gostava de mim.

-Eu gosto de você, sabia?

-Como assim?

Ai, eu e minha necessidade de explicações! Que bom que a gente muda, não é? Mas ela não respondeu. Isso nela sempre me irritava. Mesmo nas brigas, ela nunca brigava, só sorria. E acho que isso fazia eu gostar cada vez mais dela, mas me irritava tanto!

Acho que eu queria dizer a mesma coisa para ela, mas não tive coragem. Na verdade, cheguei a ter medo. Medo daquele gostar. E eu podia sentir que ele também tinha medo. Ele nunca tinha gostado dela. Sempre a achou debochada, por causa daqueles sorrisos todos. Que bobeira! Então, eu não respondi. E ficou por isso mesmo. Todos os dias a gente se via, até que o curso acabou. Foram só seis meses. Três de olhares e mais três de silêncio. Não tinha mudado muita coisa. Pensei em perguntar para ela o que ela ia fazer depois. Será que a gente ia se afastar? Era esse o destino de tudo, não? O destino é o distanciamento.

-A gente ainda vai se ver?

Ela só sorriu, de novo, e eu fiquei sem saber se isso era um sim ou um não. Ai, como eu me odiava por ter perguntado… Essa carência era tão desnecessária. Como era possível sentir falta de alguém que estava ao meu lado, de um futuro incerto? Nunca tinha sentido falta de possibilidades, nem de muitas certezas. Sentia falta da minha mãe, é verdade. E dela. Mas por quê?

-Preciso ir. Até amanhã.

-Amanhã?

-É.

-As aulas acabaram… A gente não vai se ver amanhã.

-Até amanhã.

Fiquei um tempo em silêncio, mas ela nem esperou a resposta. Acabei sussurrando para mim mesma. Até amanhã. Ou até qualquer dia, quem sabe?

 

A campainha tocou.

-Oi.

-Oi!

-Veio fazer o que aqui?

-Te visitar.

-Ah, ele tá aqui.

-Seu namorado?

-É.

-Que bom! Finalmente vou conhecer ele!

E ela foi entrando. Sem convite. Mas bem, não precisou de convite para entrar na minha vida, por que precisaria de um para entrar na minha casa?

-Oi!

-Quem é você?

Ai, de longe consegui ouvir o ciúme na voz dele. Era sempre assim, com qualquer pessoa. Isso me irritava mais do que o sorriso constante dela.

-Ela é a minha amiga do curso, te falei dela, lembra?

-Hum.

Isso bastava. Era quase como um tira ela daqui. Não tirei. Não sei se por provocação ou porque eu simplesmente não queria. Ele nunca mudou isso. Quis sempre as coisas da forma dele, quis sempre manter todo o mundo longe de mim, talvez como forma de me proteger, ou talvez por medo de ver e sentir o que ele sempre soube, que algum dia eu me apaixonaria por alguém como jamais me apaixonei por ele. E será que ele viu, será que sentiu? Me pergunto até hoje se ele desconfiou. Imagino que sim. Ele nunca foi inocente. Talvez o ciúme não fosse culpa dele, mas não sei também se era culpa minha, ou dela.

Ela começou a falar, diferentemente das outras vezes, não ficou em silêncio. Ah, que falta me fez o silêncio naquele dia. Mas ele também não deixava. Discutiam sobre coisas banais, política. Qual seria a importância de tudo aquilo que estava acontecendo para o futuro da sociedade? Visões opostas. Concordava mais com ela do que com ele. Não tinha dúvida de que isso aconteceria. Por isso nunca tinha tentado discutir sobre tais assuntos. Acho que eu tinha preguiça dele. Talvez ainda tenha. Ele era muito comum. Ela também era muito comum, mas do jeito dela, entende? Ela era completamente diferente de um jeito comum. Talvez constante seja a palavra certa. Ela era constante. Era sempre ela, era sempre a mesma, mas sempre diferente de tudo e de todos. Sempre com ideias próprias, sempre com ideias diferentes, e sempre constante por não mudar sua forma de ser, por ser sempre capaz de ver as coisas com uma luz diferente, de entender as inconstâncias.

Ela me chamou para sair naquele dia. Quer ir comigo lá? Lá… No nosso lugar. Lugar onde eu teimei em levar ele. Acho que queria que ele fizesse parte da minha vida de alguma forma, da forma como ela fazia. Não tanto, mas quase. Eu não era tão ruim assim. Eu tentei. Com ele, eu tentei. Mas por quem? Nunca vou saber responder. Mas eu não fui. Por causa dele, talvez, ou por causa dela. Era tudo muito confuso para mim naquela época. Agora, até. Tudo continua muito confuso. Acho que a confusão é o sinal. Quando tudo parece muito certo, é porque provavelmente há algo de muito errado. Mas naquela época era diferente. Eu precisava daquela certeza. Então eu não fui. Continuei em casa com ele e ela foi embora. Dessa vez ela não disse até amanhã. Só sorriu. Até quando, será? Eu esperei, mas não queria esperar.

E ela sumiu. Naquele dia ela sumiu. E eu sempre fui teimosa e não quis procurar. Quis saber, mas não quis saber. E ela também não quis, não devia ter querido. Acho que durante a juventude temos aquela noção de que, se a pessoa não procura, não demonstra, é porque não quer. Mas eu queria e não procurei, não demonstrei, sumi também. Queria que ela tivesse aparecido e quase a culpei por toda aquela distância. A gente costuma culpar as pessoas quando elas não agem da forma como a gente espera. Pelo menos quando é com as pessoas de quem gostamos. Quando a gente não gosta, é fácil não ter expectativa. É fácil viver uma vida leve, sem alavancos. Mas quando a gente gosta da forma como eu gostava dela sem saber, a gente espera um conto de fadas. Espera a pessoa surgir do chão enquanto a gente anda pela rua, tocar a campainha e dizer que não pode viver sem a gente. Porque a gente não pode viver sem ela, apesar de não sermos capazes de admitir. Só que a gente sempre espera que a outra pessoa seja capaz de admitir. A gente sempre espera que a outra pessoa seja menos humana do que a gente, que tenha menos medos.

É muito fácil esperar. É muito difícil esperar. E eu esperei, até que um dia parei de esperar.

 

Fiquei noiva. Foi bonito o pedido. Foi no restaurante onde tivemos nosso primeiro encontro. Nunca contei como eu conheci ele, não é? Ele era um estranho, como ela era. Nos conhecemos numa festa de um amigo em comum. Mas diferentemente de como foi com ela, eu consegui olhar no olho dele. Não tive problema nenhum de fazer isso. E, no momento, ser capaz de olhar nos olhos me pareceu ser amor, atração. Talvez fosse. Talvez eu realmente tenha amado ele algum dia. Eu só sei que, quando aceitei o pedido, eu achava que amava. Então, eu aceitei. Bem, foi legal. Me fez chorar. Hoje não sei se foi de felicidade ou se foi de saudade de algo que eu não tinha nem vivido. É muito comum a gente fazer isso. Mudamos nossas memórias para se adequarem ao que sentimos atualmente. Se me apaixono por outra pessoa hoje, é como se nunca tivesse amado aquela outra. Porque dói admitir que o amor acabou. É mais fácil pensar que nos enganamos e que ele nunca existiu do que pensar que ele acabou. O fim é triste, o fim de qualquer coisa. Talvez naquele momento eu tivesse sentido o fim, não tenho certeza. E até hoje não veio esse momento esperado. Mas sempre chorei por ele.

 

Fui procurar um vestido de noiva um tempo depois. Acho que nessa época eu já estava com 22 anos. Namorávamos havia cinco anos. Cinco anos e um noivado. Foi numa das lojas de vestido de noiva. Ela estava lá. Eu a vi primeiro e quase saí correndo. Saí correndo por medo de ter perdido ela para sempre. Mas que bobagem! Já tinha perdido ela. Fazia dois anos. Dois anos e um noivado. Mas ela me viu, me viu antes que eu conseguisse pensar em qualquer reação, antes que eu conseguisse me mexer, sair do lugar. E ela sorriu para mim, sorriu e me deu um abraço. Parecia que nada tinha mudado. Quis perguntar para ela o que ela estava fazendo lá, se ela ia se casar, mas a pergunta partiu dela primeiro.

-Veio comprar seu vestido de noiva?

-É.

Senti meu rosto ficar cada vez mais vermelho. Isso acontecia frequentemente. E, novamente, meus olhos fugiram dos seus.

-Parabéns!

-E você, vai casar?

Essas duas últimas palavras quase não saíram, saíram trêmulas, hesitantes.

-Se eu vou casar?

-É.

-Não. Vou ser madrinha de uma amiga. Vim com ela.

-Entendi.

-Como anda a sua vida? Vai se casar com a mesma pessoa?

-Vou. E tá tudo bem. E com você?

-Também.

-Foi bom te ver.

-Você também.

Ela se virou. O sorriso continuava lá, mas era diferente. Criei coragem e perguntei.

-Até amanhã?

-Até amanhã.

De novo, o sorriso diferente. Sempre senti raiva do sorriso orgulhoso dela, mas senti mais raiva desse. Sentia raiva de tudo. Acho que sentia mais raiva de mim, por tê-la deixado sumir.

 

No dia seguinte eu esperei.

 

Ela apareceu, realmente apareceu. Disse oi, tudo bem? Tudo e você? E parecia que nada nunca seria daquela forma. Parecia que ela nunca mais estenderia a mão e me diria para ir com ela, parece que eu nunca mais visitaria aquele lago, aquele silêncio, aquela paz.

Parece tão idiota pensar assim. Parecia desde aquela época. Nunca precisei de nada nem de ninguém. Mas sentia falta naquele momento, falta de algo que é essencial. Não sabia disso, era uma menina boba. Continuo sendo. Mas é, a gente costuma aumentar as coisas depois de um tempo, para provar a nós mesmos que o amor sempre existiu, só aquele amor, acima de qualquer outro. Que o amor surgiu na primeira troca de olhares. Mas não foi assim. Acho que não foi assim. Não sei. Sinceramente não sei quando o sentimento passou a existir. Sei que, agora, sinto falta dela naquele momento. Não sei se no momento eu sentia. Não sei se o fato de ela ter aparecido mudou algo na minha vida. Mas agora parece que mudou, parece que mudou tudo.

 

-Então, me conta, como vão os preparativos pro casamento?

-Bem…

-E a despedida de solteira? A gente devia fazer alguma coisa.

-É. Uma amiga minha planejou uma viagem. Acho que vai ser isso mesmo.

-Legal.

-Você quer ir?

-Pode ser. Vai ser legal.

-É… Como anda a sua vida? Tá namorando?

Acho que, naquele momento, foi uma pergunta inocente. Ou não, talvez tenha sido culpa do meu inconsciente.

-Não.

Ela hesitou, quis falar mais alguma coisa. Descobri anos depois o que era. Será que as coisas teriam sido diferentes se ela tivesse falado o que queria naquele momento? Será que havia a possibilidade de as coisas serem diferentes? Ou será que tudo que aconteceu estava predestinado? Às vezes pregam peças na gente. Deus ou seja lá quem for. Acho que depende do que você acredita. Eu acho que naquele momento minha reação não teria sido muito boa. E ela nunca foi de falar muito também, então talvez tivesse sido exatamente do jeito que tinha que ser.

Continuamos conversando sobre coisas do casamento. Era estranho conversar dessa forma com ela, tanto que nem lembro mais exatamente sobre o que falamos. Me sentia mais confortável nas nossas conversas silenciosas. Era como se toda a atenção dela estivesse focada em mim por estar focada em outros lugares. Como quando a gente passa muito tempo olhando para tudo e para nada, mas nossa mente está viajando por lugares que nunca nos atreveríamos a explorar se não fosse dessa forma. Sentia como se ela explorasse minha mente, meu rosto, meu corpo, enquanto olhava para tudo, menos para mim.

E tê-la olhando para mim era estranho, me desconfortava aquela intimidade distante, aquela conversa com tanta pessoalidade e pouco sentimento. Era como se ela fosse qualquer outra pessoa, qualquer outra amiga interessada em detalhes, em fofocas, quase. Mas ela nunca tinha sido assim. Ou talvez tivesse sido assim sempre e eu tenha criado ela diferente na minha mente depois desses anos. Mas não vem ao caso, é isso que eu me lembro, não importa se minha memória está brincando comigo ou não.

Me lembro que ela ofereceu ajuda para comprar meu vestido, já que não tinha sido capaz de fazer absolutamente nada naquele dia em que a encontrei. E eu aceitei. Aceitei que ela fosse comigo e nós fomos. Inventei uma desculpa qualquer para quem iria comigo antes da oferta dela. Sempre me senti muito mal de inventar desculpas para as pessoas, mas todos faziam isso parecer tão natural, que seria muito menos natural contar a verdade. E que verdade? O que diria? Não quero ir com você? Se a desculpa esfarrapada era uma maldade, isso era o que? Acho que a vida tem muito a ver com escolhas de maldades. Não que sejamos pessoas más, mas sim egoístas, muitas das vezes. Mas não é só isso. A questão é que não podemos agradar a todos, e muitas das vezes escolhemos contar uma desculpa esfarrapada em vez de uma verdade maldosa.

Fomos comprar o vestido no dia seguinte. Entramos na primeira loja e olhamos instantaneamente para a mesma peça. Ignoramos a vendedora, sem nem ouvir o que ela tinha a dizer. Devia ser uma das tantas frases prontas, como posso ajudar. Às vezes certas coisas acontecem na nossa frente e a gente não percebe de cara. Lembro de uma vez que estava num restaurante com minha mãe e pedimos a conta. Estávamos tão envolvidas na conversa que nem vimos que o garçom havia colocado a conta na mesa. Fomos perceber minutos depois, quando ele voltou para saber do pagamento. Da mesma forma, só percebemos a presença da vendedora minutos depois, quando nos olhamos e vimos que ela estava parada atrás da gente.

Tirei o vestido do cabide sem falar nada. Olhava para ela e via brilhos. Acho que não precisaria nem experimentar para saber que seria aquele. Soube no exato instante que olhei. E sabia que caberia perfeitamente. Sabia que estava ali para mim.

-Pode me ajudar a fechar?

-Eu?

-É, entra aqui.

Ela entrou. Em nenhum momento a mão dela tocou a minha pele, mas podia sentir a energia que passava de uma carne para outra. Sentia o calor do corpo dela mesmo de longe, conforme ela levantava o zíper do vestido. Estava de frente ao espelho, poderia ver o rosto dela se quisesse. Mas não queria. Aquilo deveria ser indiferente a ela. Era só um vestido, só uma mulher. Não era normal o que eu estava sentindo, então claramente ela não estava sentindo o mesmo. Mas, no meu pensamento, estava. No meu pensamento, ela me tocava de leve.

Me virei para ela.

-Esse vestido é lindo.

-Eu também gostei. Você devia experimentar, quem sabe você não usa um igual no seu casamento.

E lá estava eu falando de relacionamentos de novo. Talvez quisesse saber, inconscientemente, se havia alguém na vida dela. Queria saber, mas não queria perguntar. Nunca fui muito direta.

-Eu acho que não vou me casar.

Quis muito perguntar por quê, quis muito saber o que se passava na cabeça dela naquele instante, mas parecia tão errado perguntar. Era mais fácil voltar àquela intimidade forçada.

-Ah, mas não custa nada experimentar.

-Ele é seu.

-Como assim?

-Não ficaria bem em mim.

-Então experimenta outro. Eu escolho um pra você, vem!

Saí de lá com o vestido ainda. Demorei talvez uns vinte minutos escolhendo um vestido para ela. Não que não fossem bonitos, porque eram. Mas precisava ser perfeito. Ele estava escondido, mas eu achei. Escolhi-o da mesma forma que nós duas havíamos escolhido o que eu vestia. Entrei na cabine na frente e pendurei-o ao lado de onde minha roupa estava. Ela entrou logo atrás e fechou a cortina. Eu nunca tinha sido o tipo de mulher que troca de roupa na frente de outras pessoas, mas acho que ela era.

Acho que nunca fiquei tão vermelha na minha vida. Não sei se ela percebeu ou não, mas eu podia sentir o meu rosto esquentando, meu corpo todo esquentando, e ela ainda não tinha nem começado a tirar a roupa. Ela nem ficaria completamente nua. Mas aquele pensamento me assustava. Era errado! Tentei abaixar os olhos, mas acho que isso só causaria mais suspeita. Não sabia como agir normalmente, se é que alguma vez já tinha feito isso na frente dela. Ela começou tirando a calça. Depois, a blusa. Achei que pararia por aí, até ver o sutiã saindo… Maldita hora em que fui escolher um vestido sem alça para ela!

Evitei olhar muito, mas não pude conter a curiosidade daquele momento. Notei a marca de biquíni, a cor amarronzada do bico dos seios dela. Mas logo desviei o olhar. Não queria que ela percebesse. Não poderia.

Ela não demorou muito para se vestir, para minha sorte. Mas ficou mais linda do que o normal com aquele vestido branco, para o meu azar. E ainda abriu um sorriso, aquele sorriso devastador, aquele sorriso que me causava raiva e cada vez mais interesse.

-E aí?

-Ficou perfeito.

-Pena que você não vai se casar.

-É, pena…

Ela sorriu mais uma vez, mas era como se algo estivesse escondido por trás. Acho que sempre foi como se houvesse algo mais, algo disfarçado. Talvez por isso aquele sorriso me incomodasse tanto.

-Por que não vai se casar?

-É complicado.

É complicado? Realmente. Casamento é algo complicado. É um compromisso, uma responsabilidade. Pensei que talvez ela não estivesse pronta para assumir algo assim naquele momento. Mas em nenhum momento se passou pela minha cabeça que ela não pudesse. Será que já pode? Será que se casou? Não cheguei nem a pensar que talvez ela não quisesse. Era inimaginável pensar, naquela época, em alguém que não queria. Era um momento em que a imposição da sociedade era muito maior do que nossas próprias vontades, nossos próprios desejos, nosso próprio corpo, até. Ainda é, até hoje. Talvez um pouco mais mascarado, mas na mesma intensidade.

 

-Você vai continuar com esse vestido?

-Não me dá vontade de tirar.

-Você fica linda nele.

Linda… Ele me chamava muito assim. Mas, saindo da boca dela, parecia uma palavra diferente. Parecia ter toda uma carga, todo um sentimento. Era mais do que uma palavra, era mais do que uma sequência de sílabas, de letras, de sons. Era verdadeiro. Não que ele não falasse sério quando me chamava assim. Acredito que falasse. Outras pessoas já tinham falado a mesma coisa antes, e eu não tinha motivos para não acreditar. Mas, de qualquer forma, naquele momento, pareceu mais verdadeiro. Como se a palavra assumisse um significado novo, um significado que ela sempre teve e que eu nunca tinha notado.

Eu só sorri.

-E a despedida? Onde vai ser mesmo?

-Já nem sei mais. Uma amiga tinha falado de uma viagem, mas não sei se eu quero. Queria ficar por aqui mesmo.

-Então faz algo por aqui.

-Mas ela estava tão animada…

-O casamento é seu, você sabe disso, né?

-Eu sei. Mas isso não me dá o direito de magoar os sentimentos dela.

-E por que você pensa que faria isso? Só porque mudou de ideia?

-É.

-As pessoas têm essa mania de pensar que falar a verdade é magoar os outros. Por isso contam cada vez mais mentiras. E depois dizem que era uma forma de proteger, de cuidar, que fizeram isso porque se importavam com você. E outra, você não tem a obrigação de fazer nada além do que você quer. Seja feliz.

 

Ser feliz… Engraçado como isso soa agora.

 

Fiquei alguns minutos sem responder. Acho que ela nunca tinha sido tão direta assim.

 

-Você tem razão. Vou pensar em algo para fazer. Queria fazer algo mais caseiro, mas não quero fazer lá em casa.

-Se quiser, pode fazer na minha.

-Na sua casa?

-É.

-Eu nunca soube onde você mora…

-Aqui perto. Quer ir lá?

-Agora?

-Assim que você tirar esse vestido.

Não entendia por que ele me fascinava tanto. Hoje, penso que ele me fascinava mais do que o próprio casamento.

Ele está guardado no meu armário até hoje. Ainda cabe em mim, por incrível que pareça. Mesmo depois de 5 anos e de uma barriga.

 

Tirei o vestido, um pouco relutantemente. Não quis deixar ao acaso, então paguei logo, deixando-o para trás só para que fizessem os ajustes.

 

Nunca poderia imaginá-la morando em uma casa como aquela. Na verdade, não sabia muito sobre a vida dela, e só me dei conta daquilo quando passei pelos portões e fui muito bem recebida por um gato (depois ela me disse que era, na verdade, uma gata) preto e branco e muito felpudo.

-Não sabia que você tinha um gato.

-Tenho 10.

-10? Nossa…

-Tenho 7 cachorros também.

-Por que tantos?

-Nem todos são meus. Alguns estão aqui só esperando adoção.

-Tipo lar temporário?

-Mais ou menos.

Nesse momento, devo ter olhado para ela com cara de interrogação, porque ela sentiu a necessidade de continuar a explicar.

-Eu fundei uma ONG pra ajudar animais maltratados e nós não conseguimos um espaço oficial ainda, então, enquanto isso, trabalhamos daqui.

-Nossa…

-Mas eu posso prender eles no dia da festa.

-Estão todos soltos agora?

-Estão. Os cachorros ficam no quintal e a maioria dos gatos passa o dia escondido.

-Posso ver?

-Vem.

Ela estendeu a mão, mas, antes que eu pudesse tocá-la, mudou de ideia.

-Me segue.

Fomos até a cozinha e passamos pelo portão de vidro que a separava do quintal. Antes mesmo de abrirmos a porta, dois cachorros foram nos receber e, depois, com o barulho, os outros apareceram. Dois eram pequenos, um porque realmente tinha o porte pequeno e o outro porque ainda era filhote, e os outros cinco eram maiores.

Ela apontou para um de cada vez e foi me dizendo seus nomes, sem nem parar para pensar. Era incrível a habilidade dela de se conectar a eles – a forma como os tocava, como olhava para eles, até mesmo as palavras que pronunciava. Era como se eles próprios estivessem hipnotizados com a presença dela lá.

-Você já foi mordida por cachorro alguma vez?

-Já, por quê?

-Não sei… Parece que você se dá tão bem com eles.

-É difícil estabelecer esse nível de confiança. Mas eles são como nós. Nós precisamos mostrar que somos dignos para sermos aceitos.

-Você não se apega a eles?

-Demais.

-Como vai ser pra doar depois?

-Vem comigo.

Ela me levou para uma sala que ficava um pouco depois do quintal. Parecia uma casa de hóspedes, mas era um pouco menor, tendo apenas uma sala e um banheiro, e ela tinha transformado o espaço em um escritório.

-Aqui tem fotos de todos os animais que eu já salvei.

-Foram quantos?

-No total, entre cachorros e gatos, 43. E eu doei todos eles, menos os que estão aqui em casa agora. Mas isso não significa que me afastei deles.

-Você vai visitar?

-Sempre que posso. E os donos me enviam fotos também e dão notícias.

-Você sabe o nome de todos eles?

-Alguns ficaram com nomes diferentes depois da adoção, mas sei.

-Legal.

-Olha, ele está falando com você.

-Eles não sabem falar.

-Só por que você não entende?

-E você entende?

-Eu não sei o que as palavras deles significam, mas sei o que eles querem dizer com elas.

-E o que ele quer dizer?

-Que ele confia em você.

-Ele nem me conhece.

-Claro que conhece. Você é o tipo de pessoa que dá pra conhecer depois de um só encontro.

-Foi por isso que você me chamou pra ir com você naquele dia no curso?

-Foi.

-Pra onde você ia me levar? Pra aquele lago?

-Não. Não importa mais.

-Eu queria saber.

-Você quer saber muita coisa, entender tudo.

Ela riu daquele jeito dela, mas as palavras eram verdadeiras. Eu realmente tenho essa mania de tentar entender tudo que acontece ao meu redor, de analisar tudo, de entender por que as coisas são como são. E ela me entendia melhor do que ninguém.

-Aqui seria um ótimo lugar pra fazer a festa. Tem certeza que não vou incomodar?

-Claro. Vem, vamos voltar lá pra dentro. Vou fazer alguma coisa pra gente jantar, já está ficando tarde.

-Tá.

-Aí você aproveita e me diz o que está planejando fazer.

-Quero fazer algo pequeno, com algumas amigas minhas só.

-Mas vai servir que tipo de comida? E bebida? Planejou alguma brincadeira?

-Não sei… Não queria ter que pensar nessas coisas.

-Se quiser, eu planejo a festa pra você.

-Jura?

-Claro. Ei, pega um alho lá fora pra mim?

-Lá fora? Onde?

-Tem uma estufa lá fora. Em vez de virar à direita em direção ao escritório, à esquerda. Lá dentro.

-Ah, tá! Vou lá pegar.

Uma estufa… Uma horta. Que tipo de pessoa tem algo assim em casa? Me pareceu surreal, irreal, mas fascinante. Enquanto eu desbravava o lugar, ela me gritou pedindo que eu pegasse alcaparras. Que diabos são alcaparras?

-Desculpa, não sabia o que era alcaparra.

-Tudo bem.

Junto com o sorriso dela, o barulho da campainha.

-Pode ir ver quem é?

-Tá.

 

-Oi.

-Oi.

Ela foi entrando, sem nem perguntar quem eu era, se podia entrar, ou se estava incomodando. Era como se estivesse acostumada a encontrar meninas estranhas na casa de sua amiga, então apresentações eram desnecessárias. Ela foi diretamente à cozinha e as duas se abraçaram como se nenhum sentimento fosse mais verdadeiro.

-É ela?

Era quase como se eu não estivesse ali.

-É. Mas tenha modos!

Ela se dirigiu a mim, como se tivesse notado minha presença lá pela primeira vez.

-Finalmente! Depois de anos, só fui te conhecer agora?

-Anos?

-Você não contou pra ela?

-Ai, fica quieta. Já te contei que a despedida de solteira dela vai ser aqui?

-Você vai se casar?

-Vou.

A tal da amiga olhou de novo para ela, me desprezando levemente.

-Você tem merda na cabeça.

-Você é louca.

Em seu caminho da pia até a geladeira, passou por sua amiga e lhe deu um beijo. Senti alguma coisa naquele momento, mas não sabia bem o quê. Raiva pelo desprezo com que ela me tratava, ou ciúme da relação das duas, talvez. Pela primeira vez, me senti desconfortável perto dela. Não… Também me senti assim quando ela e meu noivo se conheceram e quando ela e minha amiga se conheceram. Talvez eu tivesse ciúmes dela com qualquer outra pessoa. Talvez eu quisesse ela só para mim. E talvez, só talvez, esse ciúme fosse exteriorizado em forma de raiva, de birra. Me sentia uma criança mimada, e odiava essa sensação.

 

-Daqui a pouco a comida fica pronta. Vai ficar pra jantar?

-Não vou incomodar?

-Infelizmente, não.

Me sentia como se, com sua amiga, ela fosse mais verdadeira do que jamais tinha sido comigo.

-Tem vinho?

-Tem. Quer?

-Quero. Você… Quer?

Mais desprezo. Sempre direcionado a mim.

-Eu não bebo.

-Nossa, então tá…

-O que você quer beber? Tem suco e refrigerante.

-Tanto faz…

-Tanto faz? Vou te dar vinho, então.

Meu encontro com a amiga dela não tinha sido muito longo, mas também nada agradável. O resto da noite até que seguiu bem. As duas ficaram conversando sobre coisas que só elas entendiam. A amiga se referia a mim às vezes, e ela sempre me olhava um pouco sem graça e tentava mudar de assunto. Quando voltava do banheiro em um momento, entreouvi uma discussão das duas que achava ter algo a ver comigo, mas, apesar da minha vontade de descobrir mais, logo as interrompi com a minha presença. Apesar de sentir que não pertencia àquele lugar, que não pertencia à vida dela, algo me impedia de ir embora, algo me dizia que eu deveria continuar lá, que deveria esperar até ficar sozinha com ela novamente. Então, pacientemente, eu esperei. Esperei até que aconteceu o que eu menos esperava.

-Ei, tá na hora de você ir.

-Tá bom. Te amo.

-Eu também.

Mais um abraço caloroso, beijos quase que de canto de boca – pelo menos pelo que eu conseguia ver – e nós ficamos sozinhas de novo.

-Você quer que eu vá também?

-Não, você não.

-Por que não?

-Você faz muitas perguntas.

-Já tá tarde. Daqui a pouco preciso ir também.

-Quando quiser ir, pode ir. Mas se quiser ficar até mais tarde, posso te levar em casa depois, ou então você pode dormir aqui.

-Posso dormir aqui mesmo?

-Claro.

-Então posso beber um pouco de vinho?

-Tem certeza?

-Tenho.

-Vou pegar pra você.

Sempre tive uma relação muito estranha com bebidas alcóolicas. Quando eu era criança, um tio meu – ele não era meu tio de verdade, era só um cara que tinha se casado com a irmã do meu pai – foi parar numa clínica por problemas com bebida. Eu era muito nova para entender o que era isso, o que estava acontecendo. Sempre tinha achado ele meio estranho, mas nunca soube exatamente por quê. Quando perguntei à minha mãe por que ele estava no médico, ela me disse que era porque ele estava triste. Desde então, sempre associei a bebida à tristeza, à depressão. Não como causadora, mas sim como se ela, de alguma forma, fosse capaz de curar um mal nosso com o qual nós não conseguimos lidar sozinhos. Mas, ao mesmo tempo, me baseando nessa mesma história, isso não faz o menor sentido. Por mais que ele usasse a bebida como fuga, ele ainda se sentia triste, ainda se sentia deprimido, e precisou ser internado da mesma forma. Acho engraçado a nossa relação com as coisas e com as pessoas. Damos a elas um papel muito mais importante do que deveríamos, um papel que deveria ser nosso: cuidar da gente. Esperamos que pessoas nos salvem, que coisas nos distraiam. Mas nos salvem de quê? Nos distraiam de quê? De nós mesmos? Da nossa própria vida, que não somos capazes de controlar? Agora percebo que seria tão simples ser feliz… Bastava eu viver, fazer minhas escolhas, cuidar de mim. Mas eu não fiz isso. Em vez disso, recorri à bebida, como se ela pudesse me salvar de algo que eu nem mesmo sabia o que era. E, como qualquer novata necessitada, deu no que deu.

-Você tá bêbada?

-Tal… Talvez…

-Ai, meu Deus, o que eu fiz?

-Você é uma menina muito, muito má.

Só consigo lembrar de algumas coisas depois dessa fala. Sei que ela riu, sei que me deu uma toalha para que eu tomasse um banho, que me ajudou a entrar debaixo do chuveiro – de toda a minha experiência de bêbada de primeira viagem, essa foi a pior parte – e que me colocou para deitar. Sei que eu falei mais besteiras, e acho até que chorei, porque me lembro de uma conversa que tivemos um pouco depois de eu ter recuperado os sentidos.

-Você não é uma pessoa feliz.

-Eu nunca disse que era.

Pensei por alguns minutos. Não sabia se concluía meu pensamento ou não. Tinha medo de ela me achar idiota, de ela me odiar depois daquilo. Tinha medo de ser mal recebida, de ser julgada. Mas continuei.

-Foi quase como uma imposição, entende? A tristeza… Ela é imposta. Mas não é possível impor felicidade, só tristeza.

-Como a tristeza é imposta?

-Não vê que tudo impõe tristeza? Essas pessoas à minha volta, os barulhos, as cores. Mais do que isso, as sensações. Estamos cercadas de pessoas tristes. É como se eu conseguisse ver no rosto delas as marcas de todas as lágrimas que já caíram. E são tantas, por tantos motivos diferentes!

-Não tem nenhuma felicidade?

-Tem. Mas poucos falam dela, poucos mostram. É muito difícil admitir a felicidade, mas é muito fácil falar da depressão.

-Por que você não foge disso, dessas pessoas?

-Fugir? Como? Pra onde? Não… Com quem?

-Comigo.

-Você é felicidade. Você é paz. Mas eu não posso.

-Você não quer.

-Não querer é uma imposição.

-Deve ser muito difícil viver pensando sempre nos outros.

-Todo mundo faz isso.

-Claro que não, eu não faço.

-Não?

-Não como uma obrigação.

-Nunca fez algo que não queria pra agradar alguém?

-Não.

-Nem os seus pais? Nunca mentiu porque isso deixaria a outra pessoa feliz? Nunca mentiu pra evitar discussão?

-Não. Sempre fui muito verdadeira com todo mundo e principalmente comigo mesma. Fui ensinada a ser assim. O problema é que os pais criam os filhos na mentira. Querem que eles saibam como lidar com a morte, mas não querem ter o trabalho de explicar o que ela é, querem que eles façam sexo seguro, mas não conseguem nem pronunciar essa palavra na frente deles. Querem que eles fiquem longe das drogas, mas não têm coragem de tocar nesse assunto. Todo mundo enxerga a criança como algo inferior, que precisa ser protegido, mas ela sabe mais do que a gente imagina. Mais do que a gente, até. Porque ela sabe que a verdade é importante.

-Então você só fala a verdade?

-Pois é.

-Você contou pros seus pais quando transou pela primeira vez?

-Contei.

-E quando bebeu pela primeira vez?

-Bebi pela primeira vez com a minha mãe.

-Então, já que você só fala a verdade, quero te perguntar umas coisas.

-Fala.

-Você acha que eu devo me casar?

-Você que sabe. Você deve fazer o que te fizer feliz. Mas isso só você pode definir o que é.

-Você tá feliz por mim?

-Sim e não.

-Explica.

-Quero que você seja feliz e acho que, se você decidiu se casar, é porque isso vai te fazer bem, pelo menos um pouco. Mas não queria que se casasse.

-Por que não?

-Você realmente quer saber? Realmente tá pronta pra verdade?

-Não sei.

-Então decide e eu te conto.

Ela se virou para ir embora, mas eu não queria que ela se fosse. Não queria ver ela se afastar de mim.

-Pode contar.

-O que quer saber exatamente?

-Por que não quer que eu me case?

-Porque isso mata as esperanças.

-Você tá sendo vaga demais.

-Eu não acho que você esteja pronta pra tudo que eu tenho a te dizer.

-Me diz!

-Eu não quero que você se case porque eu te amo. Porque eu te amei desde o segundo em que te vi e porque queria pelo menos acreditar que teria uma chance com você algum dia. Porque sou muito impaciente pra esperar o destino decidir o que tem que ser da gente, e porque quero você pra mim agora.

 

Há outro detalhe muito curioso na bebida: a coragem. Não acho nem que ela dê coragem, acho que nós mesmos criamos a coragem por termos o que culpar se algo der errado. É muito difícil se arriscar, cair de cara no chão, e admitir que você se jogou porque quis. É muito mais fácil falar que alguém empurrou, que algo ajudou. E, naquele momento, culpando todo o álcool que tinha entrado no meu sangue, eu a beijei. Puxei ela para cima de mim e só parei quando senti o peso e o calor dela me sufocando. Pela primeira vez na vida, senti aquela urgência que só viria a sentir de novo com ela. Queria ter ela para mim, só para mim, naquele exato momento. Queria ver de novo o bico dos seus seios, e queria sentir eles entre os meus dedos, na minha língua e nos meus lábios. Queria explorar todo o corpo, sentir seu gosto. Nunca tinha me sentido assim com sexo. Nunca tinha sentido tanto desejo, tanta vontade, como senti naquele momento, ali, com ela. Culpei a bebida, durante muito tempo. No fundo, sempre soube que o padrão era inegável. Mas, o que quer que tenha sido que me deu coragem naquele momento, me fez ir até o final. Ela chegou a me parar, por um momento, mas eu não permitiria aquela derrota. Aceitaria qualquer outra, em qualquer outro momento. Mas não aquela, naquele lugar, naquela hora, com tudo aquilo que eu estava sentindo, depois de tudo aquilo que ela disse. Naquele momento, decidi que iria até o fim e que pelo menos uma vez na vida o suor dela se juntaria ao meu, meu corpo se encaixaria no dela e eu sentiria o gosto dela na minha boca, em mim. E o fim foi doloroso, o dia seguinte foi doloroso. Não era realmente o fim, mas parecia ser. Quando acordei, ela ainda estava de olhos fechados, deitada ao meu lado. Meu braço a envolvia, repousava em um de seus seios. Passei uma eternidade a olhando, decorando todos os detalhes de seu corpo, criando uma imagem dela perfeita para que nada fosse capaz de tirá-la de mim. Logo, eu descobriria que apenas a imagem não seria suficiente, mas, naquele momento, era só isso que eu tinha. Não demorou muito para que ela acordasse.

-Bom dia.

-Bom dia.

Eu sorri sem graça, como se tudo que havia acontecido no dia anterior fosse coisa da minha cabeça e como se eu tivesse culpa por ter imaginado tudo aquilo.

-Vou colocar uma roupa.

Tive medo de perdê-la caso ela se afastasse mais uma vez, então meus braços seguraram o corpo dela com mais força. Mas isso não impediu que ela fosse, que ela se levantasse. Mais um beijo, mais um toque, mais um sorriso, e era como se algum vento tivesse levado o calor dela para longe. Foi horrível tirar meus braços de lá. Era quase como se ele tivesse criado raízes na pele dela. Ou como se eles fossem as raízes. E era dela que eu me alimentava, era dela que vinha meus nutrientes, minhas forças, o calor que me aquecia. Ela ir embora era o mesmo que eu me perder, que eu morrer. Mas eu precisei soltá-la.

Passei mais um tempo deitada, até criar coragens para levantar e me vestir. Por incrível que pareça, levantar foi pior do que tirar meus braços de cima dela. Mas a dor dessa vez era real, física, e eu por fim descobri o que a bebida causava. Quando terminei de me vestir, fui procurá-la e a encontrei na cozinha.

-Tem um remédio em cima da mesa pra você. Vai ajudar.

-Ah… Valeu.

Ela sorriu, mas era um sorriso tão frio, tão distante. Passamos muito tempo em silêncio, enquanto ela preparava algo para comermos, mas, ao contrário dos outros momentos de silêncio com ela, esse não foi nada bom. Parecia que ela tinha algo a me dizer, que queria desabafar. Eu tinha medo de saber o que era, tinha medo de que a noite anterior tivesse feito eu perdê-la de vez, que aquilo fosse nos afastar para sempre. Por isso, apesar do medo, eu perguntei. Eu tive que perguntar.

-Você quer conversar sobre ontem?

-Não sei.

-Não sabe?

-Eu quero conversar sobre ontem, mas eu ainda não decidi como eu me sinto, não decidi ainda o que eu tenho a dizer, então prefiro não falar nada.

-Entendi… Você quer que eu vá embora?

-Em algum momento você vai ter que ir, seu noivo deve estar preocupado.

-É…

-Mas toma café primeiro, já está quase pronto.

-Tudo bem.

O resto do tempo foi preenchido por aquele silêncio frio, aquele silêncio impessoal, aquela sensação de que havia algo no ar, algo a ser dito, algo a ser feito. Mas talvez ainda fosse muito cedo para fazer ou dizer qualquer coisa, talvez nenhuma das duas soubesse direito o que estava sentindo. Por mais desconfortável que aquele momento fosse, terminei de comer o que meu estômago aceitou e comecei a juntar as minhas coisas para ir embora.

-Que dia vai ser sua despedida de solteira?

-Não sei ainda… Eu posso fazer aqui mesmo?

-Pode.

-Se você quiser que eu procure outro lugar…

-Você pode fazer aqui. Só me diz que dia vai ser que eu preparo as coisas, as comidas, as bebidas e tudo o mais.

-Tá… Eu te ligo quando souber a data.

-Tá bom.

-Tchau.

-Vou te levar na porta.

Naquele momento, aquela foi a pior despedida possível. Ela segurou minha mão antes de eu ir embora, me puxou para perto dela e me deu um último beijo. Eu conseguia sentir a tristeza dela. Ou talvez a tristeza que eu sentia fosse a minha. Não tive coragem de ir para a casa dele depois daquilo, mas também não queria ir para a casa do meu pai. Na verdade, tive até medo de sair na rua, de encontrar qualquer pessoa, porque foi só depois do primeiro passo para fora que eu percebi que o cheiro dela ainda estava em mim, o gosto dela ainda estava na minha boca, apesar da comida que tinha entrado depois. Tudo dela ainda estava em mim, e aquilo me causava vergonha. Tive vergonha de alguém descobrir tudo que estava escondido dentro de mim, tive vergonha de que sentissem o cheiro dela em mim, tive medo de que percebessem que eu escondia algo, que eu escondia um caso proibido, e, pior ainda, um caso proibido com uma mulher. Será que eles saberiam? Será que era possível sentir o cheiro do sexo em alguém? Já tinha ouvido algo parecido em algum filme, ou lido em algum livro, e não queria que descobrissem. Não queria que descobrissem o que eu havia feito, o que eu sentia. Mas para onde eu poderia ir? Eu não tinha nenhum amigo com quem pudesse falar sobre isso, e eu também não queria falar. Queria manter aquilo comigo, queria que fosse um segredo meu. Meu e dela. Assim, pelo menos, teríamos uma coisa só nossa, algo que nunca poderia ser tirado da gente.

Eu precisava tomar um banho, precisava tomar um banho antes de encontrar qualquer pessoa, antes de ir para qualquer lugar. Cheguei a considerar a possibilidade de ir a algum hotel, mas não tinha dinheiro. Então, pensei em ir até o lago. Mas eu não sabia chegar lá, e nem sabia se poderia tomar banho lá. Naquele momento, desejei ser uma pessoa impulsiva, desejei ter a coragem de voltar à casa dela, de pedir para que ela fosse ao lago comigo, que ficasse pelo menos mais um pouco ao meu lado. Engraçado, eu queria que a coragem surgisse em mim, sempre quis. Nunca sequer imaginei que a coragem era algo íntimo, pessoal, que não podia surgir nem ser tirado de mim. Sempre pensei que um dia ela surgiria, que um dia ela chegaria sem pedir licença e que, então, finalmente, eu poderia ser feliz, poderia ser quem eu queria, fazer o que eu queria. Então, eu só esperei, e a coragem não veio, é óbvio que não veio. Depois de uma volta no quarteirão, desisti de tudo aquilo, de todo aquele segredo, e resolvi voltar para a casa do meu pai. Não importava mais que sentissem, que desconfiassem. Aquilo havia acontecido e agora fazia parte de quem eu era, quisesse eu ou não.

 

Passado um tempo, era como se aquilo nem tivesse acontecido. Era quase como se eu pudesse esquecer aquele dia, aquele momento. E eu acho que até esquecia, menos quando estava com ela. Perto dela, tudo voltava, e às vezes eu gostava disso, e às vezes eu odiava. Era como se estar perto dela atrasasse toda a minha vida, como se eu não pudesse seguir em frente, não pudesse me casar, se ela estivesse ali. Mas, ao mesmo tempo, eu não queria que ela fosse embora, não queria perdê-la. Por mais que nada daquilo tivesse acontecido de novo, era sempre como se pudesse acontecer. E aquela esperança, aquela expectativa, me fazia viver. Todas as vezes em que nos encontramos, até o dia da minha despedida de solteira, foram iguais, superficiais. Conversávamos sobre as coisas do dia a dia, ela me fazia perguntas, queria saber como iam as coisas com ele, e eu respondia. Era como se ela fosse só mais uma, por mais que eu soubesse que não era. Mas será que ela sabia? Será que ela sabia que ela não era só mais uma, será que eu mostrava isso? Parecia não fazer muita diferença. O fato era que eu ia me casar, e o dia estava cada vez mais perto. Já era o dia da minha despedida de solteira, e o casamento tinha pelo menos uma vantagem: todo aquele planejamento me impedia de pensar demais, de analisar demais as coisas, de pensar no que havia acontecido com ela, de sentir o que eu sentia por ela, de fantasiar. Talvez seja por isso que as pessoas trabalhem tanto, talvez seja só uma distração de todas as fantasias. Acho que a falta de tempo livre faz com que as pessoas parem de pensar em tudo que elas queriam ser, em tudo que elas queriam dizer, em quem elas queriam amar.

Enfim, era o dia da minha despedida de solteira. Eu cheguei na casa dela mais cedo para que pudesse ajudá-la nos preparativos. Quando cheguei, quase tudo já estava pronto – enfeites, comidas, bebidas – e não havia nada que eu pudesse fazer, ou que ela pudesse fazer, a não ser esperar dar a hora. Então, em vez de lidar com o silêncio constrangedor de uma conversa que nunca tivemos, resolvi passar o tempo lá fora com o cachorro dela. Quase todos os cachorros e todos os gatos que estavam lá no primeiro dia em que eu fui já haviam sido adotados, menos um único cachorro, que ela havia decidido que ficaria com ela. Passei todo o tempo lá fora, evitando olhar para dentro e descobrir o que ela estava fazendo, até que, finalmente, a campainha tocou pela primeira vez. Era só aquilo que eu queria, uma fuga daquela minha realidade com ela. Mas não foi bem isso que aconteceu. Eu devia ser realmente ruim de conversa, porque, naquele momento, com nós três na sala, o silêncio foi ainda mais constrangedor, e eu não conseguia pensar em nada para dizer. Mas o silêncio também não durou muito, ele foi logo substituído por ciúmes. Ciúmes da conversa que ela estava tendo com a minha amiga, ciúmes de elas estarem se entendendo tão bem, ciúmes de ela ter estendido a mão para que minha amiga fosse com ela até a estufa, e de minha amiga ter aceitado de primeira, coisa que eu mesma havia sido incapaz de fazer. Não demorou muito até que as outras chegassem, mas o que eu sentia não mudava nada, porque as duas estavam cada vez mais próximas. Eu via que minha amiga ia atrás dela quase sempre que ela saia da sala, via que elas se aproximavam cada vez mais, e vi, ou não vi, que uma hora as duas sumiram. Todo o tipo de pensamento se passava pela minha cabeça, e estava sendo muito difícil aturar aquela festa, aquelas pessoas. Eu só queria que todo mundo fosse embora, queria mandar todo mundo embora e ficar sozinha com ela. Queria falar para todo o mundo que ela era minha! Mas ela não era minha, era? Agora eu percebo como aquele pensamento foi egoísta, como tudo que eu fiz foi egoísta. Ela me disse que me amava, nós transamos e lá estava eu, dando minha despedida de solteira na casa dela e querendo que ela fosse só minha, querendo que ela fosse fiel a mim e que me amasse acima de qualquer coisa. Eu esperava dela o que eu nunca fui capaz de dar. Mas, naquela noite, eu não pensava naquilo. Só pensava no quanto eu queria ficar com ela, no quanto queria sentir seu beijo de novo, seu calor, seu corpo contra o meu.

 

Fugi da minha própria festa e fui procurá-la em todos os cantos da casa. Fui até o quarto dela, mas a porta estava trancada. Como já tinha bebido algumas taças de vinho, resolvi seguir com aquela coragem e bati na porta, que ela não demorou a abrir.

-Oi… Que foi?

-Cadê ela?

-Ela quem?

Eu já estava pronta para vê-la com alguém lá dentro, mas não foi isso que encontrei. Não sabia se isso me deixava triste ou feliz.

-Esquece… Achei que minha amiga estava aqui com você.

-Não.

-O que você está fazendo aqui?

-Nada, só estava deitada. Precisava fugir um pouco.

-Posso fugir com você?

-Pode.

Nós nos deitamos na cama, lado a lado, e eu decidi que aquele era o momento certo para conversarmos.

-Do que você está fugindo?

-Dessa sensação, desse sentimento. E você?

-Da mesma coisa, eu acho. Acho que a gente precisa conversar sobre o que aconteceu.

-Você tem algo a me dizer?

-Não sei…

-Se tiver, pode falar.

-Você tem algo a me dizer?

-Não.

-E como a gente resolve isso?

-Não tem nada a ser resolvido. O que aconteceu já aconteceu e não tem como a gente desfazer isso.

-Você quer desfazer?

-Não. Nada disso tem sido como eu queria, mas eu fico feliz que tenha acontecido pelo menos uma vez.

-Por quê?

-Porque só me deu mais certeza.

-Certeza de quê?

-Do que eu sinto por você.

-Mas isso não é ruim?

-Como pode ser ruim amar alguém?

-Eu não sei… Eu te deixo triste?

-Sim. Mas a culpa não é sua.

-Como não?

-É tudo questão de escolha. Você escolheu se casar.

-É… Eu senti ciúmes de você hoje.

-Ciúmes?

-É… De você com a minha amiga.

-Ah. Ela é legal.

-É. E ela pareceu gostar de você.

-Ela gostou. Me deu o telefone dela.

-É? Você vai ligar pra ela?

-Provavelmente. Isso te deixa com ciúmes?

-Deixa…

-Ela é muito bonita.

-Pois é. Talvez você se case com ela algum dia.

Ela riu. Uma risada alta e verdadeira como eu não ouvia havia muito tempo.

-Você não entende, né?

-O quê? Eu sei que você disse que não queria se casar, mas…

-Eu nunca disse que não queria me casar.

-Mas no dia que fomos comprar o meu vestido…

-Eu disse que não ia me casar.

-E que diferença faz?

-Toda.

-Explica.

-Eu quero me casar. Mas só tem uma pessoa com quem eu quero me casar, e ela está tendo a despedida de solteira dela agora.

-Você quer se casar comigo?

-Se eu fosse me casar com alguém, seria com você.

-Por quê?

-Porque eu te amo.

-Mas você pode amar outras pessoas.

-Será que posso?

-Pode, claro.

-Bem, eu penso diferente.

-Desculpa.

-Você não precisa se desculpar. Eu vou voltar pra festa, você vem?

-Posso passar mais um tempo aqui?

-Pode.

Acho que aquela foi a primeira vez em que realmente comecei a pensar em tudo aquilo, que percebi a que ponto meu egoísmo havia chegado. Foi naquele momento que decidi tomar uma decisão. Não foi o momento em que finalmente me decidi. Mas, afinal, não sei se algum dia sequer me decidi sobre qualquer coisa, em vez de deixar que decisões fossem tomadas em meu nome. Parecia ser tão mais fácil assim, fazer o que era esperado, viver buscando não decepcionar ninguém além de mim mesma. Porque sempre pareceu ser bem mais simples viver com a decepção que eu mesma me causei do que com a decepção dos outros, com o julgamento dos outros. Nunca suportei que me olhassem torto, odiava pensar que poderia causar tristeza a outra pessoa. Mas não era isso que estava acontecendo? Era como se eu tivesse tomando uma escolha, como se eu escolhesse a felicidade dele e de alguns outros não tão importantes para mim acima da felicidade dela, acima da minha felicidade. E só depois de tantos anos é que eu fui perceber que nada disso era fácil, que a minha decepção em mim mesma era o maior peso que eu teria que carregar, e que provavelmente o carregaria pelo resto da vida. Como quando dizem que, no leito de morte, as pessoas se arrependem mais do que deixaram de fazer do que do que fizeram. É assim que eu me sinto agora, a única diferença é que meu leito de morte chegou um pouco mais cedo, eu percebi um pouco mais cedo os machucados que eu mesma me infligi ao tentar fugir daquele sentimento, daquela nova realidade. E realmente machucava, machuca até hoje.

Mas a dor também é algo estranho, e toma tantas formas diferentes… Há dias em que levantar da cama dói, mas há dias em que tudo flui, em que é fácil viver, até que algo aconteça. É como tomar um banho de água fria, sentir aquele choque que muda tudo, que faz com que seu próprio corpo se adeque àquela sensação.

Naquele momento, eu sentia dor. E eu me enganava achando que ela havia sido a causa. Se ela não tivesse aparecido na minha vida daquela forma, talvez nada daquilo tivesse acontecido, ou pelo menos tivesse demorado um pouco mais para aparecer. Se eu não a tivesse conhecido, talvez eu pudesse ter um casamento feliz, uma vida feliz. Não que aquilo fosse a felicidade, porque a felicidade não é facilmente substituída assim, mas eu poderia continuar vivendo com aquela cegueira, poderia continuar me enganando. Mas por que ela teve que aparecer e me mostrar que a vida que eu tinha não era a que eu realmente queria? Depois que ela apareceu, foi tão difícil fingir, foi como se tudo que eu tinha decidido que seria verdade voltasse a ser mentira. E naquele momento foi particularmente difícil, difícil aceitar que tudo aquilo estava acontecendo. E acho que o mais difícil era aceitar que nada estava acontecendo, que tudo estava sendo como tinha que ser, como eu havia decidido que seria. Eu me casaria, iria morar em uma casa com quintal, de preferência em frente ao mar e em um lugar afastado. Teria filhos, ficaria em casa cuidando deles. Não porque era particularmente isso que eu queria. Queria ser uma mulher importante, ter um emprego importante que precisasse da minha atenção plena, queria ser independente, ser capaz de cuidar de mim mesma e ser feliz sem que alguém me dissesse sempre o que fazer. Mas eu não era capaz de ser nem o básico disso, não era capaz de dar sequer o primeiro passo, que era ser dona da minha própria vida, ser mentalmente independente, então como seria capaz de todo o resto? Me mexia tudo que ela dizia, me fazia ter vontade de ficar ao lado dela, de beijá-la e sair daquele quarto com minha mão junto à dela. Desde que ela apareceu, tive vontade de mostrar meu segredo para o mundo tudo. Queria tocá-la sem medo, sentir o seu corpo no meu sem pensar que aquilo era proibido. Quem me dera aquilo fosse tão simples… Chegaria em casa depois de um longo dia de trabalho e ela estaria me esperando, preparando a comida com ingredientes de nossa horta, com o cachorro deitado ao lado dela. Depois de jantarmos, conversaríamos. Com os olhos abertos ou fechados, com ou sem silêncio. E a conversa depois aconteceria entre nossos corpos. Eu tocaria o cabelo dela de leve, tiraria cada peça que cobrisse seu corpo, deixaria que meus dedos corressem de leve por todas as suas marcas, pelas três pintas que formavam um triângulo em sua barriga, pela mancha de nascença que cobria parte de sua bunda e de sua coxa. Conheceria cada dia melhor suas particularidades, seus gostos. Eu mordiscaria o bico de seus seios até que eles ficassem enrugados, beijaria suas coxas e deixaria minha língua percorrer sua barriga. Começaria a tocá-la com meus dedos, para sentir seu líquido contra a secura da minha pele, deixaria meus lábios encostarem em seus lábios e minha língua chegar ao seu clitóris. Não demoraria muito para que meu corpo, seu corpo, nossos corpos ficassem molhados, de sexo, de suor, de amor. Continuaria a beijá-la até que seu corpo estremecesse, até que meu corpo estremecesse. Meu corpo, seu corpo, que diferença faria? Seríamos uma só, e não apenas durante o sexo. Mas não podia fazer nada daquilo. Naquele momento, a única parte íntima que eu podia tocar – e mesmo assim, com aquele maldito sentimento de culpa – era a minha. Quem me dera fosse tão simples…

 

Mas era simples! Sempre foi, mesmo que eu nunca tivesse conseguido enxergar. E, naquele momento, com certeza não foi isso que se passou pela minha cabeça. Naquele momento, simples era continuar com aquele teatro, era me casar com ele, seguir o planejamento inicial. Continuei deitada por mais um tempo, até que meu corpo se recuperasse do orgasmo culposo. Pensei em todas as perguntas, onde você estava? Era tudo tão tedioso! Pelo menos teria minhas fantasias, sempre teria minhas fantasias, por piores que fossem.

 

Talvez tivesse sido o efeito da bebida, talvez tivesse sido o tédio, não sei até hoje, mas minhas amigas decidiram voltar à adolescência. Verdade ou consequência? Nunca a verdade, isso eu tinha certeza. Nenhuma verdade, porque tudo que conheciam de mim era a mentira. Consequência, então. E minha consequência, entre tantas outras, foi beijá-la. E vindo logo de quem? Logo da única ali que havia demonstrado interesse nela. Talvez aquilo a excitasse, talvez fosse um prenúncio do que estava por vir, com apenas um personagem trocado. Beijei. Tive medo de que desconfiassem, de que o beijo levasse a mais desconfiança, mas beijei.

Ela foi a última a ir embora, e passou o tempo todo ajudando-a na arrumação, se aproximando demais dela. Como aquilo me irritou! Esperava que, no fim da festa, pudéssemos passar um tempo juntas, conversar um pouco mais. Acho que esperava que ela me salvasse, que ela dissesse algo que apagasse todo o meu medo, que ela fosse a minha coragem. Mas agora nada disso aconteceria. Provavelmente não aconteceria antes, de qualquer formar, mas pelo menos havia esperança. E agora, não. Pelo menos não naquele momento. Então, fiz a única coisa que poderia fazer e fui embora. Mas não podia ir para casa, não podia encontrá-lo, não queria. Precisava passar mais um tempo sozinha, apesar de já estar tarde. Ao contrário da última vez em que me senti assim, criei um pouco de coragem e decidi que iria ao rio, que passaria o resto da minha noite lá. Já sabia como se fazia para chegar lá, já tinha ido com ele aquela única e última vez, então chamei um táxi e segui.

Queria ter me jogado no rio assim que cheguei, mas a coragem não servia para tanto, era só um começo, só um indício. Mas fiz a coisa mais próxima disso. Tirei meu tênis, levantei minha calça e me deitei na beira do rio deixando que meus pés fossem tocados por aquela frieza, por aquele choque. Fechei os olhos e fui tomada por minhas fantasias. Eu devo ter caído no sono, porque só abri os olhos novamente quando senti o sol queimar o meu rosto. Abri os olhos, mas não sei se acordei ou se era um sonho, pois ela estava ali. Estava deitada ao meu lado, com os pés dentro d’água e os olhos fechados. Era como um espelho meu, quase como se minha mente estivesse pregando uma peça em mim e eu a estivesse imaginando ali da mesma forma como eu estava – afinal, minha criatividade não era lá essas coisas. Resolvi tocá-la, e foi aí que percebi que não era um sonho. Ela abriu os olhos abruptamente e olhou para mim.

-O que você está fazendo aqui?

-Seu noivo me ligou, estava preocupado com você. Eu imaginei que você estava aqui.

-Desculpa ter atrapalhado.

-Atrapalhado o quê?

-Vocês duas…

Ela riu, como se eu fosse uma criança falando alguma besteira.

-Ela foi embora um pouco depois de você.

-Por quê?

-Porque eu disse pra ela ir embora.

Eu senti um sorriso se abrir em meu rosto. Senti um pouco de felicidade, quase pude acreditar que ela existia. Voltei a fechar meus olhos e acho que ela fechou os dela também, porque eu pude conversar com ela através daquele silêncio, assim como tínhamos conversado da primeira vez. Compartilhamos muitos sentimentos, muitas verdades, ou pelo menos foi isso que pareceu, foi assim que me senti.

 

-Por que você veio pra cá?

-Eu não queria ir pra casa.

-Você podia ter ficado lá em casa.

-Eu queria ficar sozinha… Como sempre.

-Você não está sozinha.

-Eu me sinto tão sozinha…

Eu chorava, mas as lágrimas saíam sozinhas e era impossível de controlar.

-Por quê?

-Eu estou cansada disso, cansada de sentir que eu não pertenço a lugar nenhum, que não tenho uma casa, uma família. Cansada de precisar de ajuda e não ter.

-E seu noivo? E seu pai?

-São iguais, é incrível! Vivem me dando esporro, não se cansam de mostrar tudo que eu faço errado, tudo que eu deixo de fazer, tudo que eu não sei… E não se cansam de desabafar comigo, de liberar o estresse do dia deles em mim. Eu me esforço tanto… Me esforço tanto pra deixar eles felizes, pra fazer tudo certo, mas tem sempre mais esporro. Eu acho que eles pensam que eu nunca estou mal, que tudo tá sempre dando certo, tudo tá sempre perfeito.

-Talvez seu problema seja tentar sempre agradar os outros.

-É, talvez seja. Desculpa por estar chorando.

-Você pode chorar quando quiser.

-Não, não posso! Isso é idiota.

-Se você está chorando, tem um motivo.

-Talvez não. Talvez seja tudo coisa da minha cabeça.

-O choro é uma forma de mostrar ao mundo o que você sente sem ter que usar palavras. Quando eu me sinto triste, eu falo tudo que estou pensando e é um alívio enorme. Mas às vezes não dá para usar palavras… E o choro é uma forma de falar, é uma forma de soltar um pouco do que está dentro de você.

-Eu nunca chorei na frente deles…

-Você tem medo que eles descubram algo sobre você, quem você é?

-Nem eu sei quem eu sou.

-É claro que sabe. Você pode não querer admitir, mas você sabe exatamente quem você é, sabe exatamente o que você sente e o que te faria feliz. Todo mundo sabe.

-Se todo mundo sabe, por que quase ninguém é feliz?

-A felicidade não é uma condição, é um momento. Todo mundo tem momentos felizes. E poderiam ter mais, se não sentissem tanto medo.

-É isso que eu sinto, medo?

-Só você pode responder essa pergunta. Bem, seu noivo está preocupado com você. Vamos embora?

-Só mais um pouco.

-Você quer que eu vá embora, quer que eu te deixe sozinha?

-Eu quero que você não me deixe sozinha.

Nós duas fechamos os olhos mais uma vez. Mesmo naquela escuridão dos meus pensamentos, dos meus sentimentos, eu sabia exatamente onde ela estava, onde a mão dela estava, e foi isso que minha própria mão buscou. Minha mão queria a dela, meus dedos queriam se entrelaçar aos dedos dela. Só isso. Apesar das minhas fantasias, o beijo e o sexo pareciam tão supérfluos naquele momento! Queria só a companhia dela, queria sentir a pele dela tocando a minha, a respiração dela se juntando à minha. Queria fugir mais um pouco da realidade, mesmo sem saber qual ela era. Eu havia tomado uma decisão na noite anterior, a decisão de seguir em frente com o plano original, mas aquilo parecia tão pouco real e eu me senti tão perdida… Parecia não haver mais uma verdade. Nunca teve, na verdade, mas até então, sempre tinha tido, entende? Aquela era a primeira vez que eu perdia meu chão, era a primeira vez que eu percebia que a verdade era só uma ilusão, que tudo aquilo era coisa da minha cabeça! Eu precisava daquilo, precisava dela, e, quando estávamos sozinhas, era só isso que importava.

Deitei minha cabeça no ombro dela e deixei que minhas mãos tocassem seus cabelos, seu rosto. Depois de um tempo, o beijo. Mais um beijo, mas sempre O beijo. Deitamos uma de frente para a outra e continuamos a nos beijar. Em momentos assim, o tempo confunde a gente. Pareceu uma eternidade, mas pareceu ser tão pouco tempo! E eu precisava ir embora, ela precisava ir embora. Mas uma coisa tinha mudado. Eu não deixaria ela sair da minha vida, pelo menos não por enquanto. Não perderia aquilo que tinha com ela.

 

Nas semanas seguintes, pelo menos uma noite eu passava na casa dela. Não sentia mais medo de ele desconfiar. Acho que até queria que ele desconfiasse, que ele descobrisse. Queria que ele terminasse comigo, mesmo que fosse tudo minha culpa. Queria uma saída fácil, uma forma de fazer tudo que eu queria sem precisar fazer nada. Mas não foi tão simples… Ele não percebia, ou fingia não perceber, e cada dia que se passava o casamento estava mais próximo, a minha realidade estava mais próxima. Quando estávamos juntas, nunca falávamos sobre o casamento. Ela não me perguntava nada e eu não falava nada. Era quase como se aquela fosse uma realidade paralela, uma realidade onde eu era feliz, e nada mais existia ali a não ser eu e ela. Mas era inevitável, essa conversa era inevitável. E foi no dia do casamento que ela aconteceu, foi no dia do casamento que eu a perdi.

Apesar da correria do dia, apesar de todas as madrinhas que estavam comigo enquanto eu me arrumava, eu precisava passar um tempo sozinha com ela. Não sabia o que aconteceria depois. Será que continuaríamos a visitar nosso mundo paralelo sempre que tivéssemos vontade? Ou aquilo não seria mais o suficiente para ela, ou o suficiente para mim até? Precisava falar com ela, precisava beijá-la mais uma vez, pois tinha medo de que aquele dia mudasse tudo. Tinha medo de que ela fosse embora depois da cerimônia e nunca mais voltasse, medo de não conseguir me despedir, pelo menos. Então, em um momento de distração, a puxei para dentro de um banheiro e a beijei. Poderia dizer que foi o nosso melhor beijo até então, mas não foi. Era incrível o que ela me fazia sentir. Aquela sensação de estar sendo carregada, de estar sendo transportada para um lugar maravilhoso, aquela sensação que só o beijo dela me causava. Meus pelos se arrepiavam, meu estômago se revirava. Todo o meu corpo passava por uma transformação quando eu encostava os meus lábios no dela, e aquilo era como uma droga, era algo que eu precisava ter, era algo sem o qual eu não poderia viver. E eu queria que ela sentisse isso, queria transmitir para ela tudo que eu sentia através daquele beijo. Queria que ela soubesse que eu seria sempre dela, mesmo não podendo ser dela completamente. Mas o meu beijo não era capaz de transmitir isso, era? Ele não podia substituir as palavras, as ações. Meu beijo não a faria esquecer que meu noivo estava no cômodo ao lado, que meu futuro marido estava logo depois daquela parede. Não a faria esquecer toda aquela dor. Mas eu tentei, eu certamente tentei. Beijei-a como nunca havia a beijado antes. Com urgência, com medo, com amor, com dor. E aquela foi a primeira vez que ela me impediu, que ela me parou.

-Eu não posso fazer isso. Você vai se casar.

-Eu já ia me casar antes, e isso nunca impediu nada.

Ah, que ingenuidade que eu queria passar para ela! Mas nem eu era tão ingênua assim. Até eu sabia que aquele dia mudaria as coisas para sempre, que aquele dia nos separaria para sempre. Mas foi uma escolha minha, não foi? Parecia que sempre era tarde demais, que eu a conheci tarde demais, que meu futuro já estava traçado.

-Eu só continuei porque achei que você estava indecisa, porque achei que eventualmente escolheria com quem quer ficar. Sabe, eu até conseguiria aceitar se você escolhesse ele. Eu ficaria triste e magoada, mas aceitaria. Só que você escolheu os dois, e isso eu não aceito.

Ela não me deu nem o direito de resposta, mas ela estava certa. Que direito eu tinha de falar qualquer coisa, de pedir qualquer coisa? Eu chorei, mas que direito eu tinha de chorar também? Ela tinha ido embora, e aquele era o dia do meu casamento. Eu olhava para o vestido e só conseguia me lembrar do primeiro dia em que o vesti. Do dia em que ela também colocou um vestido de casamento. Só conseguia me lembrar do sutiã dela saindo, da mão dela me tocando enquanto fechava o vestido, mesmo que nunca tivesse me tocado. A memória brinca com a gente às vezes. Eu podia sentir a mão dela me tocando naquele dia. Mas não teria mais aquele dia. Não teria mais ela vestida de noiva ao meu lado. Teria só eu vestida de noiva ao lado dele. Quis correr atrás dela. Era tarde demais, sempre foi tarde demais.

Então, eu me casei. Fiquei parada ao lado dele e jurei que o amaria para o resto de minha vida, sem saber se amava ele naquele momento. Li meus votos, palavras escritas para ela. Era a única forma. Não tinha o que dizer a ele. No fim da cerimônia, procurei por ela em todos os lugares, mas ela tinha ido embora. É claro que tinha ido embora. Eu me casei. Me casei, troquei alianças, aturei a festa até o fim e consegui até aturar a lua de mel. Só conseguia me imaginar com ela, os beijos dela no lugar dos dele, os toques dela no lugar dos dele. Não chegamos nem a transar durante nossa lua de mel. Eu passava o tempo todo de frente ao mar, e ele passava o tempo todo fingindo que estava tudo bem, tudo normal. E seria assim para o resto dos tempos, um fugindo do outro, nenhum dos dois querendo encarar a verdade. Era assim que tinha que ser, não era?

Voltamos para casa, para nossa nova casa, e eu arranjei um emprego como professora de jardim de infância. Não durou muito tempo. Logo descobri que estava grávida, e então começou a nova parte do plano: ser dona de casa, ser mãe. Esperei apenas que o ano terminasse e larguei o emprego recém adquirido. Passei os outros cinco meses da gravidez em casa, e o silêncio era devastador. Foi nessa época que tentei ligar para ela, tentei encontrá-la, mas não consegui. Não sabia se o número de telefone que tinha ainda era dela mas, mesmo que fosse, ela não atenderia, eu sei que não. E eu vivia dia após dia sem esperar muita coisa. Cuidava da casa, arrumava o que tinha que arrumar, cozinhava todos os dias para quando ele chegasse, e passava todo o meu tempo livre no quintal, de frente para o mar. Pelo menos essa parte do plano era boa: morar em uma casa de frente ao mar.

 

Depois que ele nasceu, foi ainda mais fácil lidar com a rotina. Eu não precisava mais estar disponível, não precisava arranjar desculpas para não transar, porque ele dormia na nossa cama quase todas as noites. Apesar de tudo, apesar de todas as merdas, ele foi a melhor coisa que me aconteceu. Quando eu estava com ele, eu quase podia esquecer toda aquela infelicidade, toda aquela saudade, toda aquela dor. Mas qualquer outro momento era triste, estar ali, mesmo com ele, era triste. Não era onde eu queria estar, nunca foi. Mas era como eu disse… Alguns dias doía, alguns dias nem tanto. Alguns dias, eu via alguma coisa que me fazia lembrar de todo o passado, que me fazia querer desistir de tudo aquilo, voltar no tempo e ir atrás dela no dia do meu casamento. E aquele foi um desses dias. Estava sentada na sala assistindo TV com os dois, quando apareceu uma reportagem sobre a morte de uma criança da idade do meu filho. Aquilo mexeu comigo… Não era esse o mundo em que eu queria viver, um mundo de mentiras, de maldades. Um mundo em que temos mais medo de magoar aos outros do que nós mesmo. Um mundo onde somos capazes de machucar uma criança. E por que machucamos? Por que somos incapazes de lidar com nossas próprias vidas, precisamos tirar a vida dos outros, precisamos destruir uma família inteira? Não foi isso que eu fiz, de certa forma? Não destruí minha família com ela por ser incapaz de lidar com meus sentimentos? Parecia estranhamente familiar aquela sensação. As tragédias nos acompanham, a gente precisa correr atrás das infelicidades, senão somos incapazes de viver. Eu busquei a minha tragédia, busquei esse momento, e culpei todo mundo por isso não ter dado certo, mas esqueci muitas vezes de culpar a mim mesma. Afinal, tudo isso era culpa minha. Eu só cheguei a esse ponto porque eu quis, porque foi o que eu escolhi.

Eu precisava sair dali, precisava me libertar, precisava fugir da tragédia em vez de correr atrás dela. E realmente corri tentando fugir. Corri e me machuquei em um prego. Sangrou, doeu, mas o que mais doía era o que estava dentro, não era o machucado de onde o sangue escorria. Engraçado… Aquele prego um dia já serviu para segurar algo, para manter algo no lugar. Foi quase como uma rebelião, como se ele dissesse que não queria isso, apesar de ser seu trabalho designado. Um prego se rebelando! E que mal tinha ele não querer aquilo? Que mal tinha eu não querer aquilo? Que mal tinha eu querer a incerteza? Tudo parece tão idiota agora… Eu corria, mas era como se pela primeira vez no mundo eu fosse capaz de enxergar tudo que estava ao meu redor, de sentir tudo que o mundo tinha a me oferecer. Pisei em uma folha caída e percebi que outras caíam. Era outono? Devia ser. Aquele tom de amarelo era bonito. Ah, como era bom enxergar tudo daquela forma! Cheguei na água. Coloquei primeiro os pés, tinha que ser sutil, o choque já tinha acontecido. Ouvia o barulho dos carros bem à distância, ouvia alguém me gritar, mas não sabia direito quem era, se era meu filho, meu marido, alguma outra pessoa qualquer. Podia até ser coisa da minha cabeça. Eu precisava fugir, não queria saber mais daquilo. Precisava me afundar, precisava do silêncio, do silêncio de mim mesma. Senti dor. Dor do silêncio que nunca mais tinha sido como foi com ela, dor do frio que me consumia, dor do sangue que escorria do meu braço. Eu precisava daquela dor. Queria gritar! Gritar que nada tinha sido como eu esperava, que eu não queria que nada daquilo tivesse acontecido, que não queria ter te causado aquela dor! Eu precisava fazer alguma coisa, precisava sair dali! Aquela dor não era mais suficiente, aquele silêncio não era mais suficiente. Eu precisava falar com ela, precisava sair de perto dele, precisava sair de dentro da água e encarar a minha vida, encarar todas as minhas escolhas, e torcer para que ainda houvesse tempo, mesmo sabendo que sempre foi tarde demais.

 

Saí do mar e meu filho me olhava como se eu fosse louca. Como eu explicaria a ele que nunca fui feliz? Mas era melhor assim, não era? Era melhor dizer a ele agora que eu não era feliz do que continuar infeliz a minha vida inteira, do que transmitir isso para ele de alguma forma. Era mais verdadeiro, era mais real. Eu precisava da verdade. Então, eu disse a verdade a ele. Disse que estava cansada, que não podia mais continuar ali. Agradeci por tudo, ele sempre foi muito bom comigo. Agradeci e me desculpei. Me desculpei por ter prejudicado tanta gente na minha busca por mim mesma. Eu queria poder voltar no tempo, mas não podia. Podia apenas voltar atrás, da forma que fosse. E expliquei tudo a ele. Podia ver a mágoa em seus olhos, sua tristeza, mas era necessário. E ele entendeu, dava para ver que ele entendeu, e que parte dele se sentiu aliviada. Depois eu fui embora. Fui com o meu filho para a casa do meu pai e contei a verdade para ele também. Precisava que todos soubessem antes de qualquer coisa, precisava que conhecessem quem eu realmente era. E foi naquele momento que todos aqueles anos pareceram tão idiotas, tempo perdido, porque eu nunca tinha considerado a possibilidade de aquelas pessoas só quererem a minha felicidade, nunca tinha pensado que poderiam aceitar qualquer coisa que fosse desde que eu fosse feliz, desde que aquilo me fizesse bem. Pareceu surreal. Como meu pai e meu marido, apesar de tudo, se sentiram felizes por mim, por eu finalmente estar disposta a ir atrás do que eu queria. Eles sempre souberam, foi aí que eu descobri que eles sempre souberam. Mas não bastava eles saberem, né? Eu precisava saber, e eu fui a última a descobrir.

 

Ainda esperei alguns dias antes de procurá-la. Eu ainda tinha muito o que descobrir, parecia que tinha uma vida inteira para descobrir. E me permiti esse tempo.

 

Mas eu precisava procurá-la, era esse meu único objetivo. Para isso, juntei a coragem que não tive a minha vida inteira e liguei novamente para o número que eu tinha, ainda com medo de ela não atender.

 

-Alô.

A resposta rápida me causou um choque rápido, me deixou sem palavras por alguns segundos. Eu queria que ela atendesse, queria ouvir a voz dela, mas não esperava que isso realmente fosse acontecer.

-Oi… Não sabia se esse ainda era o seu número…

Ela ficou em silêncio por muito tempo, quase uma eternidade. Que ingenuidade a minha! Pensar que eu poderia voltar no tempo depois de tanto tempo!

-Ainda tá aí?

-Tô… É, esse ainda é o meu número.

-Como você tá?

-Bem…

-A gente pode se ver?

-Pra quê?

-Eu preciso chorar…

Mais silêncio, e não era do tipo bom.

-Você ainda lembra onde eu moro?

-Lembro.

-Estou te esperando.

 

Tive vontade de sair correndo, e cheguei a fazer isso. Me levantei com pressa da cadeira e fui procurar a minha bolsa, para só depois perceber que eu ainda estava de pijama. Respirei fundo. Precisava ter calma. Tomei um banho, vesti uma roupa, dei um beijo no meu filho, que ainda dormia, e fui.

 

Era cedo, o sol tinha acabado de nascer. O tempo estava tão agradável! Ainda tinha todo aquele amarelo do outono, o sol brilhava, mas não estava quente. E eu logo cheguei lá. Toquei a campainha e ela não demorou a abrir a porta, vestida ainda de pijama, com uma surpresa escondida debaixo dos panos.

 

-Oi.

-Oi.

-Entra…

 

Fiquei em silêncio… Eu tinha tanta coisa para dizer a ela, mas não sabia nem por onde começar. Me sentei no sofá e ela se sentou na cadeira que ficava logo à frente.

 

-Então, o que queria me dizer?

-Tanta coisa… Mas como você está?

-Bem. Não mudou muita coisa na minha vida.

-Tirando a barriga…

-É.

-Quanto tempo?

-8 meses.

-Daqui a pouco nasce…

-Pois é.

-Você se casou?

-Não.

-E o bebê?

-Eu sempre quis ter um filho, achei que já era a hora.

-Mas ele tem um pai?

-É assim que bebês são feitos!

Por um momento, foi como se tudo tivesse voltado a como era antes. Ela riu para mim daquela mesma forma de sempre, como se eu fosse uma criança fazendo uma pergunta idiota.

-É, eu sei… Você entendeu.

-Um amigo meu me doou o esperma dele.

-Ah tá…

-E você, como você tá? Algum filho?

-Tenho um menino de 3 anos.

-E o marido?

-Nós nos separamos.

-Sinto muito…

-Eu não. A gente nem devia ter se casado.

-Por que não?

-Porque eu amo você, não ele. Sempre amei.

Naquele momento, as lágrimas começaram a escorrer involuntariamente. A conversa não estava sendo como eu esperava, mas provavelmente era melhor assim. Eu me sentia calma como não me sentia havia muito tempo. Não sentia aquela urgência de resolver as coisas naquele momento, de decidir como o resto da minha vida seria. Estava feliz por estar ao lado dela mais uma vez. E seria como tivesse que ser. Mas nem minha calma impediu que as lágrimas escorressem.

 

-Desculpa.

Foi a única coisa que eu consegui falar depois daquilo. Nada de eu fui uma idiota e joguei fora a minha felicidade, felicidade que só você seria capaz de me dar, nada de por favor me perdoa porque eu não sei o que será da minha vida sem você. Não. Só desculpa… Desculpa por tudo que eu te causei, por tudo que te fiz sofrer, desculpa por eu ter percebido tarde demais, por sempre ter sido tarde demais.

E eu acho que ela entendeu. Acho que aquilo foi o suficiente, porque ela me abraçou e me deu um beijo. Depois disso, nada mais seria da forma como eu tinha planejado desde cedo. Nada mais seria planejado. No silêncio que se seguiu, compartilhamos tudo que havia a ser compartilhado, começamos nosso futuro juntas. A gente sabia que tudo daria certo. Ela sempre soube, eu demorei a descobrir, mas já estava claro. Foi exatamente do jeito que tinha que ser. Naquele silêncio, não tinha mais medo, não tinha mais urgência, não tinha mais mágoa nem dor. No silêncio, tinha a gente, como sempre teria. O silêncio pertencia a nós, era algo só nosso, era nossa forma de nos comunicarmos. E no silêncio, no primeiro silêncio, nosso destino havia sido traçado.

Dias e dias

Tem dias que são apenas dias. Que a gente acorda querendo continuar na cama, que a gente sai de casa sem nem olhar pro céu, porque não importa a beleza que está ao nosso redor, que a gente faz tudo que tem que fazer apenas pensando no final do dia, no momento em que vai poder encostar a cabeça no travesseiro e simplesmente esquecer. Mas tem dias que a gente começa a sorrir sem perceber, que a gente percebe cor onde nunca havia tido nenhuma, que a gente finalmente aprecia a beleza de algo que sempre esteve à nossa frente, como uma simples árvore na rua onde a gente mora, com folhas de um verde diferente de qualquer outro verde do mundo. Porque tem dias que as cores têm milhões de tons, nenhuma é igual à outra. Tem dias que a gente se fecha, que a gente coloca um fone no ouvido sem nem prestar atenção na música, só para distrair do resto do mundo. Tem dias que a gente passa por um velhinho ou por uma criança e nem sequer olha. Mas tem dia que a gente quer ajudar todos os velhinhos do mundo a atravessarem a rua, só porque isso vai fazer a gente feliz. Tem dia que a gente quer parar e falar com todas as crianças, simplesmente ouvir o que elas têm a dizer, porque, por mais que muitos pensem os contrários, as crianças talvez sejam as que têm mais coisas a dizer. Tem dias que tudo irrita, que nenhuma comida cai bem e que nenhuma palavra basta. Tem dias que valem por semanas inteiras e tem dias que passam em segundos. Tem dias que tudo que a gente precisa é um abraço e tem dias que a gente abraça tanta gente e nem dá valor. Tem dias, e são muitos dias, que a gente esquece tudo que há de mais importante pra gente. Tem dias que a gente não repara um sorriso amigável na rua, tem dias que o gato sobe no nosso colo pedindo carinho e a gente tira ele de cima, que o cachorro abana o rabo e a gente passa reto. Mas tem dias que tudo que a gente tem vontade de fazer é gritar, seja de angústia ou de felicidade. Tem dias que o sentimento transborda pelo peito e a gente não sabe onde colocar. Tem dias que a gente quer gritar pro mundo inteiro o quanto a gente ama aquela pessoa, o quanto ela faz a gente se sentir especial, porque a gente sabe que só dizer isso pra ela não vai bastar, que só demonstrar não é o suficiente, não naquele dia. Tem dias que tudo que a gente quer é mostrar para aquela pessoa o quanto ela é importante, como a presença dela faz diferença na nossa vida. E, sei lá, parece que a gente não consegue. Parece que não existem palavras no mundo capazes de transmitir isso tudo que existe dentro da gente. E talvez não existam. Eu só sei que tem dias que tudo parece dar errado, mas aí eu penso em você e dá tudo certo de novo. Tem dias que o estresse é tão grande, mas basta eu ver seu sorriso que eu esqueço tudo. Tem dias que tudo que eu quero é te abraçar muito forte e te dizer muita coisa. Mas tem dias que eu só quero te abraçar muito forte e não dizer nada.

Um dia hei de conhecer alguém mais bela.

 

 

 

Calma. Não quero. Não existe. Não pra mim.

Risinho bobo no canto de boca. Canto? Boca inteira, vida inteira. Me inunda, me consome, por dentro e por fora.

Ah!

Só você. Mais ninguém.

Acontece

Ouviu novamente o barulho de sua espera. O barulho da porta que abria novamente para mostrar olhos desconhecidos. Chegava a se odiar por se sentir assim, com essa inquietação. Olhava o celular e sentia que os segundos demoravam minutos a passar. Deu mais um gole. Água. Não queria água, queria cerveja. Uma cerveja e um cigarro. Queria se entregar àquela alienação, àquilo que fazia parte de seu ser. Pegou o cardápio. Aquele definitivamente não era aquele tipo de lugar. Aquele do qual ela gostava. Pessoas arrumadas, conversas supérfluas, olhares vazios. Não gostava daquelas pessoas, não gostava daquele lugar. Uma vela acesa na sua frente, a luz que poderia ser a luz da lua, o silêncio cortante de pessoas que viveram anos sem se conhecer. É, precisava de uma cerveja. E de um cigarro. O primeiro não existe sem o segundo. Mas olhou o celular mais uma vez. Tinham marcado de se encontrar às oito. Era oito e cinco. Chegaria a qualquer momento, talvez. Preferiu esperar mais. Não seria bom se ela a visse bebendo cerveja e fumando cigarro. Achava que não seria. Havia se sentido como uma daquelas pessoas nas poucas vezes em que havia tentado. Sentia-se reprimida. Você sabe que eu não gosto quando você faz isso, então por que você faz? Não eram necessárias palavras. Às vezes o silêncio diz mais. Às vezes o silêncio torna nítida uma frase inteira, uma conversa inteira. O barulho, de novo. Resolveu não olhar, não queria mais saber também. Talvez desse tempo para pelo menos um cigarro. Não sabia que horas ela chegaria mesmo. Não sabia nem se ela iria. Abriu a bolsa, tocou o maço. Largou. Foda-se. Ouviu uma voz familiar atrás de si e virou-se.

– Oi.

– Oi.

– Tô com fome, se importa se a gente pedir logo?

– Não.

– O que você quer?

O que eu quero? Quero uma cerveja e um cigarro.

– Pode pedir o mesmo que você.

– E pra beber?

– Já pedi água.

– Tá bom.

– Você se atrasou.

– Quê?

– Você se atrasou.

– É.

– Tava onde?

– A caminho.

Um cigarro. Olhou de novo para a bolsa. Talvez conseguisse sair, só precisava de uma desculpa. Não. Precisaria também de algo para disfarçar o cheiro, mas não tinha nada.

– Como foi seu dia?

– Foi legal e o seu?

– O que você fez?

Fumei tudo que não poderia fumar com você por perto. Bebi cerveja, mas pouca, para que não soubesse.

– Saí com uns amigos. E você?

– Eu também.

Se arrependia agora de ter desejado que ela chegasse, de ter saído para se encontrar com ela. Sentia falta. Sentia falta dela, mas às vezes sentia mais falta de ser quem era. A comida, finalmente. Não tinha fome, mas teria que bastar.

– Come devagar.

– Quê?

– Você tá comendo muito rápido.

– Desculpa.

Desculpa? Desculpa pelo quê? Por ser quem eu sou? Não. Desculpa por você não gostar de mim como eu sou. Desculpa por você não gostar que eu fume, por não gostar que eu beba, por não gostar da forma como eu como. Desculpa. Desculpa por não ter sido quem você queria. Mas por que você gostava de mim, afinal? Um dia, tinha sido tão importante. Nossa, ela gosta de mim. Ela é fantástica e ela gosta de mim. Mas aí o tempo passou. Não era mais necessário dizer que se gostavam. Mas não porque sabiam disso, mas porque já não fazia mais sentido. Já tinham vivido muitas coisas juntas. Algum dia, isso não tinha sido tão importante. Tinha começado com algumas pequenas observações. Fumar faz mal pra você. Beber faz mal. Você deveria comer melhor. E começou a fumar menos, beber menos, comer melhor, e sentiu falta de quem ela realmente era. E aí aquele sentimento, que já nem sabia se era um sentimento mesmo, tinha deixado de existir. Abriu a bolsa e pegou algum dinheiro.

– Eu preciso ir.

– Você não terminou de comer.

– Tudo bem. Tchau.

Colocou o dinheiro perto dela, tocou pela última vez a mão dela, olhou pela última vez dentro do olho dela. Sentiu vontade de chorar. Desculpa. Sempre senti que você gostava de mim pelo que eu poderia ser, não pelo que eu era. Mas eu sempre fui o que eu sou. Desculpa. Deixou que algumas lágrimas caíssem, já de costas. Dessa vez o barulho incomodou ainda mais do que antes. Sentia saudade. Amava ela, tinha certeza. Mas não amava a forma que se sentia quando tinha que se controlar para não ser quem era. Até esqueceu de acender o cigarro. Ela era muito mais importante do que o cigarro, mas ela não entendia isso. Não entendia que a falta de vontade de fumar e a vontade de mudar eram os sentimentos mais profundos que poderia sentir por ela. As pessoas sempre pedem mais do que podem ter, sem saber que estão recebendo tudo que a outra pode dar. Vai ver tudo-que-eu-posso-dar não é bom o suficiente para ela. Vai ver tudo-que-ela-pode-dar envolve a reclamação, a necessidade de mudança. Vai ver elas simplesmente não eram feitas uma para a outra. Acontece.