Despedida provisória

Dentro da manhã branca. Para dar um tempo, aterrissar de um livro e de alguns sonhos

 

Escrevendo na manhã de segunda-feira. Céu muito azul. As moças da loja de bicicleta lavam as vitrinas. Eu bebo café, abro janelas. Como uma carta para vários remetentes, para nenhum remetente. Despedida rápida, provisória: vou ficar algum tempo sem escrever aqui, pelo menos até dia 6 de janeiro. Um pouco porque vou viajar, tenho um trabalho a fazer no Rio de Janeiro. Mas principalmente porque preciso de tempo – me dar um tempo, sabe como? Ando meio esvaziado. Nos últimos tempos, investi todas as energias para terminar um livro – chama-se Os dragões não conhecem o paraíso. Não me sinto capaz de falar sobre ele. Está pronto, entregue. Foi demorado, foi difícil, talvez mais difícil que qualquer outro dos anteriores. Às vezes, escreve-se um livro como se fosse para não morrer. Eu disse às vezes, mas me pergunto se não será quase sempre assim. De qualquer forma, este foi. E não que seja um livro “triste”. Ao contrário: acho que é cheio de vida. Também não sei se tudo que é assim, cheio de vida, não será sempre também um pouco triste. Em abril, estará nas livrarias. Então conversamos.

Quando penso abril parece tão longe. Meu pensamento não alcança até lá. Tanto tempo pela frente, e o que acontecerá? Ando achando muito difícil sobreviver – essa coisa aparentemente simples, você dorme hoje, acorda amanhã, come, trabalha, faz coisas, depois dorme amanhã, acorda depois de amanhã, assim por diante. Esse encadeamento tão natural que deveria ser quase automático, e portanto sem emoção nem sustos, eu ando achando cheio de solavancos, derrapagens e, sim, cheio de sustos. Por isso preciso de tempo, dizem que tempo resolve.

Está sendo difícil escrever hoje. Escrever de manhã é difícil. As manhãs são brancas, parecem feitas mais para se olhar as coisas do que para se dizer algo sobre elas. Além disso, preciso ter cuidado. Um amigo me avisou que exponho demais fragilidades, fiquei preocupado. Talvez expor fragilidades seja o único jeito de ser que eu tenho, então não sei se tem solução.

Andei sonhando um pouco, também. Ainda não é proibido, mas tem um preço. Depois andei tentando não sonhar, mas isso também tem um preço. Não tenha expectativas, me disseram. Fiquei tentando não ter expectativas – essa coisa que amolda e desenha o futuro? Me pareceu tão seco. Estou tentando me mexer, agora, dentro desta manhã branca, no meio desse branco que não dá forma nem cor ao futuro. Tive vontade de deixar na secretária eletrônica um recado mais ou menos assim: “Fui viajar. Não vou voltar”. Só para preocupar um pouco os outros. Melhor não. Não estou fazendo nada preocupante: só vou dar um tempo.

Nos últimos dias, não vi nenhum filme, não ouvi nenhuma música. Foi um tempo branco, também. Mas recebi um poema de Renata Pallottini, e dois versos dele ficaram dando voltas na minha cabeça: “Olha garoto fica combinado assim: / perdemos só esta batalha, e não a guerra”. Às vezes fico parado repetindo: “Perdemos só esta batalha, e não a guerra”.

Acho que com o ano terminando e tudo isto aqui com este sabor de despedida, mesmo provisória, eu deveria dizer uma porção de coisas pelo menos um pouco animadoras, essas coisas que se dizem nos finais de ano. Desculpa, não estou conseguindo. Depois de terminado o livro, depois de ter sonhado um pouco e estar tentando não ter expectativa, resulta que fiquei meio esvaziado. Vou viajar, dar um tempo. O tempo resolve, dizem. Preciso que esse tempo passe e me leve dentro dele, porque até lá, honestamente e sem nenhuma espécie de modesta, estou mesmo meio burro.

E tão assustado no meio desta manhã branca. As moças continuam lavando as vitrines da loja. Todo desocupado, depois de bater o ponto final aqui, preciso arrumar qualquer coisa para fazer que seja assim como lavar vitrines ao sol. Pode ser que consiga repetir os versos de Renata: “olha garoto fica combinado assim: perdemos só esta batalha, e não a guerra”. E este ficará sendo o recado final, nesta despedida provisória. Fique feliz, eu também vou tentar. Prometo.

 

Caio Fernando Abreu (grifos meus)

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