“Ele teve certeza. Ou claras suspeitas. Que talvez não houvesse lesões, no sentindo de perder, mas acúmulos, no sentido de somar? Sim sim. Transmutações e não perdas irreparáveis, alices-davis que o tempo levara, mas substituições oportunas, como se fossem mágicas, tão a seu tempo viriam, alices-davis que um tempo novo traria? Não era uma sensação química. Ele não tinha a boca seca nem as pupilas dilatadas. Estava exatamente como era, sem aditivos.”

Caio Fernando Abreu, Morangos mofados

“No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e eram assim que se movia. Era dentro disse que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas mas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.”

Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados