Depois que a Chuva Cai – Capítulo 21

– Bom dia! – Mariana disse, acordando a menina.

– Ai, quanta animação…

– É nosso última dia juntas… Não adianta ficar de baixo astral, quero aproveitar ao máximo meu tempo com você.

– Não me lembra isso…

– Para com isso, Luzy!

– Eu me odeio por ter que ir embora.

– Para, vai dar tudo certo.

– Será?

No dia em que Mariana e Luiza completaram três meses de namoro, receberam uma notícia nem um pouco agradável da mãe de Luiza. As duas estavam na casa dela quando a mãe chegou informando que havia conseguido o emprego e que começaria na semana seguinte. Na hora, Mariana não entendeu nada, mas Luiza sabia exatamente o que isso significava. Quando a mãe saiu de casa novamente, explicou para a namorada toda a história.

– A gente precisa conversar, Mari…

– Que foi?

– Minha mãe conseguiu o emprego.

– Tá, e o que isso quer dizer?

– Você sabe que ela tem viajado bastante, né?

– Sei.

– E sabe que minha avó se mudou pro Sul, né?

– Sei. Mas que que tem?

– Minha mãe tava tentando arranjar um emprego lá pra poder ir junto, mas não tava conseguindo.

– Ah, agora ela conseguiu.

– Pois é…

– Que que tem?

– Mari, eu vou ter que ir com ela.

Mariana ficou sem palavras por um instante e evitou olhar para a namorada.

– Quando você vai?

– Bem, ela disse que vai começar a trabalhar semana que vem… Eu posso enrolar uns dias a mais aqui, mas não muito.

– Não tem como você ficar?

– Eu tô pedindo isso pra ela há um tempão… Mas ela não quer deixar. Disse que não vai ter dinheiro pra manter dois apartamentos e ainda para me bancar aqui.

– Você não pode começar a trabalhar?

– Também tentei ver isso, mas não achei nenhum trabalho que pague o suficiente e que dê pra conciliar com a faculdade.

– A gente pode ir morar juntas, então! Se juntarmos o dinheiro do meu estágio e o do seu…

– Mari, você sabe que isso não é viável.

– É, eu sei… Eu só… Eu queria que tivesse algum jeito. A gente começou a namorar há pouco tempo! E agora vamos ter que nos separar de novo?

– Quem disse que a gente vai se separar?

– Você vai estar em outro estado!

– Mas meu coração vai ser sempre seu. Achei que eu não precisava te dizer isso.

– Desculpa…

Naquele dia, no último dia que passariam juntas, Mariana se lembrou dessa conversa, se lembrou que em poucas horas a namorada se afastaria dela, e começou a chorar. As duas se abraçaram e ficaram em silêncio por algum tempo.

– Vai dar tudo certo. Eu tenho certeza. – Mariana continuou a conversa.

– Eu também tenho certeza.

– Mas agora acorda pra gente aproveitar o dia! – ela falou enquanto enxugava as lágrimas.

– A gente não ia aproveitar o dia na cama?

– E nós vamos! Mas até pra isso você precisa acordar. – ela riu.

– Nhé, tá bom.

– Que besteira nós vamos comer primeiro?

– Quais são as opções?

– Tem a pizza de ontem, tem sorvete, tem chocolate e tem batata frita. Mas a gente pode pedir alguma coisa também.

– Já sei!

– O quê?

– Calma aí, deixa eu preparar. – Luiza riu e foi até a cozinha, voltando uns 20min depois. – Tcharam!

– Que isso??

– Pizza coberta com batata frita e um pote de sorvete com chocolate derretido!

– A gente vai morrer de tanta besteira hoje! – Mariana riu alto.

– Pelo menos vamos morrer juntinhas. – ela riu também. – Vamos, milady, nosso café da manhã tá pronto!

As duas se sentaram lado a lado na mesa da sala e, como as duas crianças que eram sempre que estavam juntas, começaram a brincar com a comida. Molhavam uma batata frita no sorvete e cada uma mordia uma ponta, o que acabava causando um beijo, brincavam de aviãozinho com o sorvete e deixavam algumas gotas caírem na roupa e no chão, se mordiam quando uma colocava comida na boca da outra e demoraram muito tempo para terminar o café da manhã. Quando terminaram, foram tomar um banho, que demorou quase 2h em meio a tantos beijos e carinhos. Depois, vestiram apenas calcinha e sutiã e voltaram para a cama. Ligaram a TV e passaram o resto da tarde falando besteira e rindo de coisas aleatórias. Elas nunca haviam se divertido tanto quanto nos momentos que passavam juntas. E, apesar do clima de despedida, as duas sabiam que aquele não seria realmente o último dia. Muita coisa iria acontecer entre elas ainda, afinal, estavam conectadas por uma linha vermelha que nunca se quebraria.

– Me mostra seu dedo. – Mariana disse.

– Você não se cansa disso, não? – ela riu.

– Não! Foi o pedido de namoro mais lindo do mundo!

– Só porque eu fiz a mesma tatuagem que você?

– Não é simplesmente uma tatuagem. É uma linha que liga a gente. E ela nunca vai se quebrar, nem mesmo quando você for embora. – ela sorriu, mas algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto.

– É, eu sei. – Luiza abraçou a namorada na cama.

Além de tudo que tinham em comum, de toda a cumplicidade, as duas dividiam também a mesma visão sobre o significado do amor que sentiam uma pela outra. Sabiam que o amor delas independia, que não precisava de provas nem de comprovações, que não era algo que se podiam escolher, é algo que nasce quando a gente menos espera e ocupa um espaço dentro da gente que a gente nem sabia que tinha. E, acima de tudo, ele não é apagado pela distância. Nada nem ninguém poderia apagar aquele momento e aquele sentimento que eram só delas. Nada tinha sido do jeito que deveria ser, muita coisa tinha dado errado e conspirado contra essa união, mas, naquele momento, nada daquilo importava, pois as duas estavam mais unidas do que jamais poderiam estar ou desejar. E nada destruiria a união e a cumplicidade entre elas. Nada destruiria o que era só das duas. Nesse clima de tristeza e união, deixaram seus lábios se tocarem longamente e permitiram que suas mãos percorressem o corpo uma da outra. Depois de muitos toques, finalmente afastaram seus lábios e deixaram que eles seguissem outros caminhos, percorrendo todo o corpo da pessoa amada. Atingiram o prazer juntas mais de uma vez e, em meio a suspiros, gemidos e ao calor do corpo das duas, deitaram de frente uma para a outra, nuas, trocando apenas olhares, olhares infinitos. Aproximaram seus corpos e deixaram que eles se tocassem levemente. Mariana colocou uma de suas pernas entre as pernas da namorada, e tocou levemente no rosto dela. Luiza apoiou sua mão na cintura da namorada e as duas deixaram que suas pernas e braços se misturassem, até que não soubessem o que pertencia a quem e virassem uma pessoa só. Afinal, era isso que elas eram: uma pessoa só, com um sentimento único.

– Eu te amo, Mari.

– Eu te amo, Luzy.

Depois da despedida antecipada, ouviram algumas gotas de chuva batendo na janela do quarto de Luiza. Junto com ela, sentiram o cheiro distinto que só a chuva é capaz de causar. Se abraçaram fortemente na cama, as duas ainda nuas, e ficaram ali até pegarem no sono. Quando acordaram, bem cedo, ainda estava chovendo, e finalmente estava na hora de se despedirem de verdade. Mariana precisava voltar para casa e Luiza tinha um voo para pegar. Foram juntas até a porta do prédio e, enquanto trocavam um último beijo, a chuva foi diminuindo até parar. As duas sorriram, sentindo uma cumplicidade que sabiam que nunca poderia ser reproduzida com nenhuma outra pessoa. Luiza entrou no táxi e Mariana continuou parada na porta do prédio dela até que o táxi saísse de seu campo de visão. A vida das duas tinha mudado para sempre. Mas, por mais que nenhuma das duas tivesse percebido isso no momento, essa mudança tinha ocorrido quando se encontraram, não quando se despediram.

Anúncios

Depois que a Chuva Cai – Capítulo 20

Não demorou muito até que a tatuagem de Mariana estivesse pronta, e ela logo chegou em casa, onde todos os parentes a esperavam.

– Finalmente, filha!

– Oi, mãe. – as duas se abraçaram.

Mariana cumprimentou o resto da família e ouviu pacientemente todos os desejos de feliz aniversário. Finalmente, se afastou e foi até a cozinha, onde sua mãe estava, para procurar o que comer.

– Por que demorou tanto? – sua mãe perguntou.

– Por isso… – Mariana mostrou o dedo recentemente tatuado e ainda envolto num plástico.

– Que isso?

– É uma tatuagem, eu acabei de fazer.

– Mas que coisinha sem graça…

– Pra mim é importante, ué.

– É importante por quê?

– Porque me faz lembrar de alguém… – Mariana falou, sem perceber.

– Ah, é? Quem?

– Ninguém especial, deixa pra lá.

– Você não me conta mais nada…

– Você quer que eu te conte?

– Quero.

– O nome dela é Luiza.

– E por que ela é tão especial?

– Você promete que vai tentar entender?

– Prometo.

– Porque eu sou louca por ela.

– Era com ela que você tava antes de vir pra cá?

– É… Eu dormi na casa dela.

– Vocês estão namorando?

– Não… – Mariana parecia confusa com a reação da mãe.

– Se você sabe que gosta dela, por que não?

– Você nem parece ser minha mãe agora…

– Eu sou sua mãe, mas sou sua amiga também, e você nunca entendeu isso.

– Isso quer dizer que isso não te incomoda?

– Me incomoda a minha filha não confiar em mim pra essas coisas.

– Eu sempre achei que você ia reagir mal. Chorar, gritar, sei lá, alguma coisa do tipo.

– Só porque você é lésbica?

– Nunca imaginei essa palavra saindo da sua boca…

– Filha, eu sei que você é lésbica desde que você era criança.

– Como assim?

– Você se apaixonava por todas as suas professoras. Só queria ficar perto delas e chegou a chorar quando uma delas saiu da creche.

– Sério?

– Você não lembra? – a mãe riu.

– Não! – Mariana riu também.

– Pois é… Foi aí que eu descobri.

– E por que nunca me disse nada?

– Bem, você cresceu e começou a namorar meninos, então eu deixei pra lá.

– Você preferia que eu tivesse continuado a namorar meninos?

– Eu prefiro que você faça o que te faz feliz. O que te faz feliz?

– Ela.

– A tal da Luciana?

– É.

– Então corre atrás disso, ué.

– É… Brigada por tudo, mãe. – Mariana abraçou a mãe. – Desculpa por não ter falado nada pra você antes, mas eu também tava confusa.

– Eu imagino. E sabia que você ia me contar quando se sentisse pronta. Você quer contar pros seus tios?

– Não sei…

– Então tá. Vai ficar com eles lá fora. Vou fazer alguma coisa pra você comer.

– Tá bom. Valeu. Mas antes eu vou lá em cima rapidinho.

– Tudo bem. Te chamo quanto estiver pronto.

– Tá. Posso chamar a Luciana pra vir?

– Pode, claro. Tô louca pra conhecer essa menina.

Mariana foi até o seu quarto, sem acreditar no que havia acabado de acontecer. Mandou uma mensagem para Raphael, contando que havia contado para sua mãe e que ela havia aceitado bem, e logo ligou para Luciana.

– Oi, Mari.

– Oi! – ela falou, super feliz.

– Chegou bem em casa?

– Cheguei. Mas passei num lugar antes.

– Ah, é? Onde?

– Num estúdio, pra fazer uma tatuagem.

– Você fez uma tatuagem?

– Fiz!

– Como é?

– Depois eu te mostro.

– Por que fez?

– Porque só ela poderia expressar o que eu tô sentindo agora.

– O que você tá sentindo agora?

– Eu te amo, Luzy.

– Eu também te amo, Mari.

– Vem pra cá?

– Pra sua casa?

– É.

– Sua família toda não tá aí?

– Tá.

– E você acha que é uma boa ideia?

– Acabei de contar pra minha mãe sobre você.

– Como assim??

– Falei que você é importante pra mim, que por isso eu tinha feito a tatuagem.

– Você é louca! – Luciana riu. – Mas como ela reagiu?

– Ela disse que já sabia que eu era lésbica.

– Sério?

– Sério! Não imaginei que ela ia aceitar tão bem. E ela disse que tá louca pra te conhecer?

– É mesmo?

– É!

– E o resto da sua família?

– Que que tem?

– O que você vai dizer pra eles?

– Vou dizer que você é o amor da minha vida! – as duas riram juntas.

– Ah, é?

– É!

– Então tá, tô indo.

– Eba! Até mais, Luzy.

– Até mais, Mari. Beijos.

– Beijos!

Finalmente, Mariana sentiu que tudo aquilo fazia sentido, apesar de estar agindo como uma adolescente que havia acabado de se apaixonar pela primeira vez. E, apesar de ela não ser mais adolescente, talvez a outra parte fosse verdade. Ela tinha se apaixonado pela primeira vez. Pelo menos, era a primeira vez que ela sentia algo daquele tipo. Mariana desceu novamente, criando coragem para o momento em que Luciana chegaria em sua casa, momento pelo qual ela esperou ansiosamente. Depois de quase uma hora, a campainha finalmente tocou, e ela saiu correndo para atender.

– Oi!! – ela deu um beijo em Luciana.

– Oi. Nunca te vi tão feliz.

– Nem eu! – ela riu.

– Isso tudo é por minha causa?

– É…

– Eu mereço isso tudo?

– Você merece mais.

– É mesmo?

– É. – ela sorriu e roubou mais um beijo. – Vem, vamos entrar.

– Vamos.

Mariana era capaz de sentir o nervosismo de Luciana e, por isso, antes de chegarem perto de onde sua família estava, segurou a mão da menina.

– Gente, essa é a Luce.

– Oi. – o tio de Mariana foi o primeiro a cumprimentá-la.

– Oi, gente. – ela falou.

– Ela que é sua namorada, Mari?

– Ainda não, tio. Ela é minha futura namorada.

– Futura namorada? – Luciana ficou vermelha, mas acabou rindo.

– É. Ainda não é o momento certo. Mas, algum dia, espero que seja. – apesar de toda a família estar olhando, Mariana não se sentiu intimidada e beijou novamente a futura namorada.

– Oi, Luciana. – a mãe de Mariana saiu da cozinha para ir falar com a menina.

– Oi…

– Agora eu entendo por que minha filha se apaixonou por você. – ela riu. – Vem, senta.

Ainda demorou um tempo até que Luciana se sentisse confortável naquela situação. Ela nunca tinha sido apresentada para os pais de ninguém como sendo a “futura namorada”. Mas, enfim, aquele era um bom título. Ela fazia parte do futuro de alguém. Fazia parte do futuro de Mariana.

Depois que a Chuva Cai – Capítulo 19

Mariana estava de costas para a porta do bar e estava tão distraída com a conversa que nem percebeu a chegada de Luiza. Marcos foi o primeiro a perceber, e sorriu para a amiga. Após ver o sorriso no rosto do amigo, Mariana resolveu se virar, e só aí percebeu quem estava ao seu lado. Sem que pudesse controlar, seu coração começou a bater rapidamente e suas mãos começaram a suar.

– Oi, Mari. – Luiza disse.

– Oi. – ela estava sem palavras. Estava torcendo para Luiza aparecer, é claro, mas não imaginou que isso fosse acontecer.

– Feliz aniversário.

– Valeu. – Mariana nem conseguiu se levantar da cadeira.

– Oi, Luzy. – Marcos deu um abraço na amiga.

– Oi. Oi, Daniel.

– Oi. – o menino respondeu.

Luiza pediu uma cadeira para o garçom e se sentou ao lado de Marcos. Trocou algumas palavras com o amigo, mas o resto da mesa continuou em silêncio. Após alguns minutos intermináveis, todos voltaram a conversar, menos Mariana. Até mesmo Flávia e Luiza estavam se entendendo e rindo juntas. Só Mariana que não conseguia sair daquele estado de choque e não era capaz de fazer mais nada a não ser beber e lançar alguns olhares para os amigos. Após algumas horas e muitos chopps, Mariana foi capaz de se juntar à conversa. Luiza olhava na direção dela e, por mais que tentasse ao máximo evitar o olhar, podia senti-lo. Tinha vontade de olhar para ela de volta, de mostrar um sorriso que fizesse com que Luiza percebesse tudo que ela sentia. Mas não era capaz. Ficava completamente sem jeito perto dela, e não sabia como mudar isso.

Apesar do desconforto, Mariana deixou com que seus olhos se virassem na direção de Luiza e, sem que pudesse perceber, abriu um sorriso, o que julgava ser impossível. Por alguns segundos, tiveram a sensação de que não se conheciam, de que nunca haviam vivido tudo aquilo, de que estavam se encontrando pela primeira vez ali, naquele momento, naquele lugar, e que aquela era a primeira vez que se olhavam tão diretamente. E se apaixonaram uma pelo outra mais uma vez, como amor à primeira vista. Porque nada mais do passado importava, nunca tinha importado. Só importava aquele sentimento que emanava dos olhos das duas quando seus olhares se encontravam. E a verdade é que não precisavam de mais nada. Não precisavam se tocar, não precisavam trocar palavras, só precisavam compartilhar aquele olhar por alguns segundos para que soubessem o que se passava na cabeça da outra. E sabiam.

– Mari, eu preciso ir. – Flávia disse.

– Tudo bem, fico feliz por você ter vindo.

– Eu vou com ela. – Fernanda deu um abraço na amiga.

– Se cuidem, hein! – Mariana riu.

– Pode deixar. – Flávia deu um abraço em Mariana também e as duas foram embora.

Não demorou muito até que todos precisassem sair. Afinal, já passava das 2h da manhã e eles haviam chegado no bar às 19h. Raphael, Mateus e Fabiana foram os próximos a ir embora. Como Mateus não havia bebido, daria uma carona para Fabiana, que morava perto da casa que agora era dele e de Raphael. Por fim, ficaram só Mariana, Luiza, Marcos e Daniel no bar.

– Mari, se importa se eu for também? Tô cheio de sono. – Marcos disse, alguns minutos depois.

– Não, tudo bem.

– Marcos, me acompanha até em casa? – Luiza tinha tentado se levantar, mas estava tonta de mais.

– Desculpa, Luzy, mas eu vou pra casa do Daniel, ele mora aqui em Botafogo.

– Ah, tudo bem…

– Eu te deixo em casa. – pela primeira vez desde que Luiza havia chegado, Mariana conseguiu falar de verdade com ela.

– Tem certeza?

– Tenho. A gente pega um táxi até lá e depois eu vou embora.

– Tá bom, valeu.

Cada um pagou sua parte da conta e saíram de lá juntos. Se despediram na porta do bar, onde Mariana e Luiza pegaram um táxi. As duas passaram o caminho até Ipanema em silêncio.

– Tchau, Luzy. – Mariana disse assim que o táxi parou em frente ao prédio de Luiza.

– Não vai subir comigo?

– Não, vou continuar nesse táxi até em casa.

– Não, fica aqui, de manhã você vai embora.

– E seus pais?

– Não estão em casa. Eu fico no quarto deles e você fica no meu.

– Tudo bem, então. – Mariana não sabia se essa era a melhor ideia, mas estava com pouco dinheiro e um táxi até sua casa daria muito caro.

Luiza teve que entrar no prédio abraçada em Mariana, por conta da bebida. Chegando no apartamento, se sentou no sofá.

– Não me sinto muito bem. – Luiza disse.

– Por quê?

– Tô meio enjoada.

– Toma um remédio e um banho, você vai melhorar.

– Pode pegar o remédio pra mim? Tá no armário do banheiro.

– Tá bom.

Mariana foi até o banheiro e Luiza juntou todas as forças que tinha para segui-la até lá. Entrou no banheiro enquanto Mariana procurava os remédios e colocou a banheira para encher.

– Pronto, achei.

– Pode pegar um copo d’água pra mim?

– Tá, já volto.

Quando Mariana voltou ao banheiro, Luiza pegou o copo de sua mão, tomou o remédio e apoiou o copo em cima da pia. Vendo que a banheira já estava quase cheia, começou a tirar sua blusa, deixando a outra sem reação. Quando já estava de calcinha e sutiã, segurou a mão de Mariana. Se aproximou dela, a segurou pela cintura e a empurrou contra a parede do banheiro. Mariana podia sentir a respiração de Luiza bem perto de si, e não sabia o que fazer. Estava presa entre a parede e o corpo de seu amor, e não queria nunca mais sair dali. Vendo que Mariana não reagiu a nada daquilo, aproximou seu corpo do dela e a beijou. Mariana, deixando que seu coração controlasse sua mão, tirou o sutiã de Luiza e passou lentamente os dedos por todo o corpo dela, sem deixar que seus lábios se afastassem. Luiza, ao ver que a banheira já estava quase cheia, começou a despir Mariana também, lentamente. As duas, nuas, entraram juntas na banheira e desligaram a água. Luiza apoiou seu corpo em cima do corpo da outra e voltou a beijá-la. Com as mãos, sentiu os seios, a barriga e as costas dela. Aos poucos, foi descendo seus lábios, passando pelo pescoço antes de chegar aos seios. Com as mãos, sentiu a quentura do sexo dela e, trocando apenas gemidos, Mariana se entregou ao prazer. Colocou suas mãos e seus lábios nos seios de Luiza e a empurrou, posicionando-se em cima dela. Passou muito tempo percorrendo com os lábios e língua todas as partes do corpo de Luiza que não estavam cobertas pela água e, se irritando com a impossibilidade de levar os lábios aonde queria, se levantou e pegou uma toalha. Segurou a mão de Luiza, que se levantou também, e as duas foram até a sala. Colocou a toalha seca em cima do sofá e empurrou Luiza até lá, até que ela se sentasse, voltando finalmente aos beijos. Luiza apertava o corpo de Mariana contra o seu, dizendo que queria mais, mesmo sem usar palavras. Depois de muita provocação, Mariana finalmente levou seus lábios até o sexo dela, e continuou lá até deixá-la sem fôlego. Depois, se sentou ao lado dela no sofá e as duas se abraçaram. Pela primeira vez, Mariana não sentiu vontade de fumar após o sexo. Pela primeira vez, queria continuar exatamente no mesmo lugar. E foi ali que as duas ficaram, por alguns minutos, até que Luiza conduziu Mariana até seu quarto. Mariana se deitou na cama e Luiza prontamente se colocou em cima dela, juntando seus sexos até que as duas atingissem o prazer juntas. Depois, se deitou ao lado dela, abraçando-a e, exaustas, as duas pegaram ao sono ali, sem trocarem nenhuma palavra.

Algumas horas depois, as duas acordaram com o barulho do celular de Mariana. Era sua mãe, provavelmente querendo saber onde ela estava. Ela olhou para o relógio e viu que já passava das 8h da manhã. Antes de se levantar da cama, deu um beijo longo em Luiza. Depois, foi até o banheiro e se vestiu. As duas se despediram com um selinho e com um abraço apertado, e Mariana saiu de lá. Ela não conseguia explicar a felicidade que estava sentindo e sentiu que precisava registrar isso de alguma forma. Apesar de não haver palavras para descrever aquilo, havia uma imagem, e ela sabia exatamente qual era. Prontamente, ligou para a mãe e avisou que já estava indo para casa, que só precisava passar em um lugar antes. Assim que desligou o telefone, se dirigiu ao estúdio onde havia feito sua primeira tatuagem.

– Oi.

– Oi. Posso ajudar?

– Então, eu queria fazer uma tatuagem.

– Já sabe como vai ser?

– Sei. Quero fazer uma tatuagem no dedo.

– No dedo? É difícil encontrar algum tatuador que aceite fazer.

– É, eu sei, já andei pesquisando antes. Eu sei que ela vai sair com o tempo, sei que vai ficar com falhas, mas não tem problema.

– Bem, nesse caso, tudo bem.

– Você faz?

– Faço.

– Ah, brigada!!

– Nada. Mas então, o que quer desenhar?

– Um laço vermelho no dedo mindinho – Mariana mostrou o dedo para o tatuador.

– Um laço como?

– Como uma linha amarrada ao redor dele.

– Ah, entendi. – ele desenhou alguma coisa num papel, mostrando para ela logo depois. – Assim?

– Exatamente!

– Tá bom. Me diz… O que significa isso? – o tatuador perguntou, enquanto preparava as coisas para começar.

– É uma lenda chinesa que diz que as pessoas estão ligadas umas às outras por uma linha vermelha invisível no dedo mindinho. E que, por mais que a linha estique, ela nunca se quebra. Então, as pessoas vão sempre se encontrar.

– Ah, entendi…

Apesar do aparente desinteresse do tatuador, o significado daquela tatuagem era especial para Mariana. Significava que, apesar de tantos obstáculos, ela e Luiza sempre estariam conectadas, não importava o que acontecesse.

Depois que a Chuva Cai – Capítulo 18

Mariana acordou com uma preguiça fora do comum naquele dia. Já era abril, e faltava apenas um dia para seu aniversário e para a festa em que encontraria os amigos. Ela estava com saudade deles, havia passado os últimos meses sem manter muito contato com ninguém. Ia para a faculdade de manhã, para o novo estágio à tarde e voltava para a casa de noite, tendo apenas poucas horas ao dia para gastar com aspectos de sua rotina antiga, como internet, séries e bebidas. Além de sua vida corrida durante a semana, havia reservado os finais de semana para ler textos da faculdade, coisa que não fazia havia muito tempo. Era cansativo, é verdade, mas ela estava realmente gostando daquilo. Pela primeira vez na vida, sentia que sabia minimamente o que queria. Mas, naquela sexta-feira antes de seu aniversário, o que queria mesmo era ficar na cama. Ligou para o trabalho e avisou que não poderia comparecer, sem precisar dar muitas explicações. Estava trabalhando lá desde fevereiro e não havia faltado uma vez sequer, sempre fazendo seu trabalho da melhor forma possível. Não teriam do que reclamar.

Ela passou alguns minutos na cama tentando decidir como gastaria o seu tempo livre. Tinha se desacostumado com isso. Finalmente, decidiu levantar, pegar o notebook e voltar para a cama. Baixou todas as séries que costumava assistir antes de começar a trabalhar, e resolveu que assistiria todas naquele mesmo dia, mesmo se precisasse ficar acordada até a manhã do dia seguinte. Afinal, era seu aniversário, e ela poderia fazer o que bem entendesse. Pela primeira vez desde que havia conseguido o estágio, não precisava se preocupar com nada. Pelo menos não naquele dia, não naquele final de semana. Mariana entrou na internet enquanto esperava o download terminar, o que não demorou muito. Passou algumas horas distraída com as séries até que, em certo momento, Luiza invadiu seu pensamento. Não era raro que isso acontecesse, é verdade, mas isso sempre a pegava de surpresa. Pegou o celular para ler a mensagem que Luiza havia enviado meses antes, no dia em que haviam se falado pela última vez: “Queria dizer que eu te amo, mesmo sem saber ao certo o que é amor. Queria dizer que eu não paro de pensar em você, que ficar perto de você faz meu estômago e meu coração darem voltas, que tudo que eu quero fazer quando eu te vejo é te dar um abraço apertado e conversar sobre coisas aleatórias, e nunca mais sair dali. Queria estar ao seu lado pra tudo que você precisar e ser o motivo da sua felicidade. Queria dizer que esse amor não precisa de reciprocidade pra existir, que ele independe. É amor, ou algo muito parecido com amor, e meu coração sente isso por você. E queria te dizer, principalmente, que esse amor vai continuar existindo, quer você volte ou não.” Essa mensagem sempre fazia Mariana chorar. Mas, acima de tudo, ela se perguntava se era verdade ou não. Tentava imaginar se ela faria a mesma coisa por Luiza. Se Luiza não a quisesse, se tivesse sumido por meses como ela mesma fez, ela esperaria? Não saberia dizer ao certo. Não sabia o que sentiria caso se encontrasse com ela novamente. E queria se encontrar com ela novamente, ou pelo menos achava que queria. Por isso, resolveu arriscar. Respondeu à mensagem chamando Luiza para ir no seu aniversário. Mesmo com medo, ou receito, finalmente descobriria se as palavras dela foram verdadeiras ou não. Com medo de uma resposta que pudesse vir ou não, desligou seu celular e passou o resto do dia e a manhã seguinte assistindo séries, indo dormir por volta das 9h da manhã.

Mariana acordou quase atrasada para seu próprio aniversário. Tinha marcado de se encontrar com os amigos num bar em Botafogo às 19h e havia acordado um pouco depois das 18h. Mesmo que a noite anterior tivesse sido agradável, havia se arrependido de ter perdido quase um dia inteiro e se prometeu que não voltaria a fazer algo assim. Antes que entrasse no banho, ligou o celular e o colocou para carregar. Não havia nenhuma mensagem de Luiza, só mensagens de conhecidos desejando feliz aniversário. Tomou um banho rápido e se vestiu com mais rapidez ainda. Antes de sair de casa, recebeu vários beijos e abraços da mãe, que aceitou com bom grado, apesar do atraso. Se sentia mal por não passar o dia do aniversário com ela, mas realmente precisava de um tempo com seus amigos e de bebida, muitas bebidas. E, afinal, haveria uma festa para a família em sua casa no dia seguinte.

Mariana saiu de casa às 19h em ponto e pegou o primeiro ônibus que passaria em Botafogo. No meio do caminho, recebeu várias ligações e mensagens de seus amigos, que queriam saber onde ela estava. Disse a todos eles que chegaria em breve, que era para eles a esperarem lá. Ela chegou no bar uns 40min depois e viu Raphael, Mateus, Fabiana, Marcos e um menino que não conhecia, mas nada de Luiza. Quando os amigos a viram, se levantaram para cumprimentá-la.

– Parabéns, Mari!! – Raphael foi o primeiro a dar um abraço na menina, seguido por Mateus e Fabiana.

– Mari! – Marcos disse.

– Oi! Tava com saudade de vocês! – ela deu um abraço no amigo e olhou para o menino estranho que estava em pé ao lado dele. – Quem é ele?

– Oi, eu sou o Daniel. Parabéns. – ele mesmo a cumprimentou.

– E… – ela olhou para Marcos, esperando uma explicação.

– Ele é meu namorado. – o amigo disse.

– Namorado?? Você tá namorando? Por que eu não tava sabendo disso?

– Você sumiu, ué! – os outros amigos concordaram com ele. – Além disso, nós começamos a namorar hoje. Ele me pediu em namoro há poucas horas. – Marcos segurou a mão do namorado e olhou para ele carinhosamente.

– Ah, você podia ter me contado mesmo assim! – ela disse, sorrindo. – Mas tudo bem, eu perdoo. Tô muito feliz por você! – deu mais um abraço no amigo.

Todos voltaram a se sentar. Mariana logo chamou o garçom e pediu um chopp e uma porção de batata frita. Afinal, ainda não havia comido nada.

– Mas, então, Mari, conta pra gente como você tá! – Rapha disse.

– Eu tô bem, ué.

– Como tá o trabalho?

– Tá bem… Eu tô gostando de…

– Ah, ninguém quer saber do seu trabalho! – Fabiana a interrompeu. – Conta coisas interessantes! Fiquei sabendo da história com a Flávia e com a Luiza através deles, porque você não me conta nada, né!

– Não tem o que falar…

– Claro que tem! Você tem falado com alguma das duas? Já sabe com quem quer ficar, afinal?

– Não, não tenho falado com nenhuma das duas. E você já sabe a resposta pra outra pergunta. – Mariana riu.

– Todo mundo sabe! – disse Marcos. – Você chamou ela pra vir aqui hoje?

– Chamei.

– E aí?

– Ela não me respondeu.

– Ah, Deus, vocês são muito confusas! – Daniel parecia perdido, então Marcos logo explicou para ele toda a história, enquanto os outros continuavam tentando arrancar informações de Mariana.

– E você sabe como a Flávia tá? – Raphael perguntou.

– Não… Eu disse que queria ser amiga dela, mas ela disse pra gente dar um tempo, então tô dando um tempo.

– Você tá dando um tempo de todo mundo, né. – Fabiana disse.

– Não tô, não! Só tô muito ocupada com a faculdade e com o trabalho.

– Não sei o que deu em você. – a amiga riu.

Antes que pudessem continuar a conversa, o garçom voltou com a comida. Todos comeram enquanto conversavam sobre coisas aleatórias e, alguns minutos depois, Fernanda chegou.

– Mari!! – ela disse, assim que chegou perto da amiga.

– Fê! Que saudade!

– Pois é!

– Achei que você não vinha. Você mora super longe.

– É seu aniversário, claro que eu vinha! – as duas deram um abraço apertado. – Mari, posso conversar com você?

– Claro. Fala.

– Vem comigo.

– Que foi, Fê? – Mariana perguntou, assim que elas se afastaram um pouco da mesa.

– Queria te contar que eu tô namorando…

– Ah, que feliz!!

– Eu chamei ela pra vir aqui hoje, tudo bem?

– Claro que tudo bem! É alguém que eu conheça?

– É… Era por isso que eu queria falar com você.

– Quem é?

– É a Flávia…

– A Flávia? A mesma que eu tô pensando?

– É… Você me odeia por isso?

– Claro que não, Fê! Eu fico muito feliz por você, e por ela também! E tô com saudade dela também, vai ser ótimo se ela vier aqui hoje. – Mariana sorriu.

– Jura que você não se importa?

– Juro. Nós já terminamos há um tempão. E tudo que eu quero é que ela seja feliz. E tenho certeza que vocês vão ser feliz juntas. Mas me conta, como isso aconteceu??

– Depois daquele dia na faculdade, a gente continuou se falando. Ela me procurou quando vocês terminaram e nós começamos a nos encontrar mais vezes. E aí, aconteceu.

– E você tá feliz?

– Tô, muito!

– Então é isso que importa. – ela sorriu e abraçou a amiga. – Que horas ela chega?

– Já deve estar chegando.

– Ótimo.

– E a Luiza?

– Chamei ela pra vir hoje, mas não sei se ela vem…

– Se ela quiser ficar com você, ela vem.

– É, acho que você tem razão. Mas bem, vamos sentar?

– Vamos, claro!

Quando as duas voltaram para a mesa, os amigos estavam conversando sobre sexo, o que era comum. As duas se juntaram à conversa e, apesar da ansiedade que sentia, Mariana tentava se distrair e não pensar em Luiza. Algum tempo depois, Flávia chegou.

– Oi! – Mari deu um abraço na amiga.

– Oi, Mari. Parabéns.

– Valeu. Como você tá?

– Eu tô bem, e você?

– Tô bem também.

– E a Luzy?

– Eu chamei ela pra vir, mas não sei…

– Ainda não se entenderam?

– Eu disse que queria dar um tempo.

– Não achei que seria tanto tempo. – ela riu.

– Pois é, mas isso tá me fazendo bem. – as duas ignoraram a existência dos outros, que continuavam falando sobre sexo.

– Que bom… Espero que não esteja chateada comigo.

– Claro que não, Flá! Eu quero que você seja muito feliz, você sabe disso!

– É, eu sei.

– Vem, vamos sentar!

Flávia se sentou ao lado de Fernanda e a cumprimentou com o beijo, apesar de estar sem graça com a situação. No entanto, a conversa divertida entre os amigos logo fez com que Flávia e Daniel perdessem a vergonha e se enturmassem.

Depois que a Chuva Cai – Capítulo 17

Mariana chegou em casa, deu boa noite para a mãe e se trancou no quarto. Pegou o celular, que tinha desligado no caminho para a casa, e viu que Flávia tinha tentado ligar mais vezes. Viu também que Luiza tinha ligado uma vez. Mas ela não tinha cabeça para lidar com nenhuma das duas naquele instante. Não conseguia parar de pensar no que tinha acabado de acontecer. Será que era verdade mesmo? Ela se lembra de estar na praia com Luiza, se lembra de a menina ter se declarado para ela e de tê-la beijado logo depois. Mas tudo parecia ser um sonho. Se perguntava por que Luiza não tinha seguido ela, por que tinha deixado ela ir embora daquele jeito, se tudo que disse era verdade. O fato de elas não estarem juntas naquele momento só fazia com que Mariana duvidasse casa vez mais de suas lembranças. Mas, ao mesmo tempo, tinha pensamentos contraditórios. O que mais poderia esperar de Luiza além do que ela tinha acabado de dar? Por que sempre esperava viver um conto de fada? Por que sempre esperava gestos grandiosos que talvez nem ela fosse capaz de dar? Com medo de uma das duas ligar de novo, Mariana desligou o celular e, alguns minutos depois, acabou pegando no sono.

A menina acordou por volta das 6h da manhã, atormentada pelos sonhos que tinha tido. Tinha sonhado com um vida com Flávia e Luiza. Não as duas ao mesmo tempo, mas como numa espécie de comparação de momentos. No entanto, não era capaz de se lembrar de detalhes o suficiente para saber com qual das duas tinha sido melhor. Além disso, achou injusto que esse fosse o seu critério de escolha. De um lado, sua melhor amiga, alguém que realmente a amava. Do outro, a menina por quem era verdadeiramente apaixonada. Ela não tinha dúvida quanto ao que queria: queria ser feliz. Mas, ao mesmo tempo, sabia que essa felicidade era responsabilidade dela, de ninguém mais.

Devido ao horário, Mariana sabia que ninguém a ligaria e, finalmente, ligou o celular. Ficou surpresa ao ver que haviam várias ligações perdidas e uma mensagem de texto de Flávia e algumas ligações perdidas de Luiza. Havia também um recado na caixa postal, que ela só saberia de quem era quando ouvisse. Viu primeiro a mensagem da namorada, que perguntava se as duas poderiam se encontrar no dia seguinte, mas não respondeu no momento. Afinal, precisava decidir primeiro o que queria antes de falar com qualquer uma das duas. Por último, foi ouvir a mensagem que estava gravada na caixa postal. Jurava que seria de Flávia, e se surpreendeu ao ver que não era. Ouviu a longa mensagem até o fim e, quando terminou, estava chorando. Sim, ela sabia o que ela queria. Queria tudo que Luiza tinha prometido em sua mensagem, por mais egoísta que isso fosse. A menina havia prometido que esperaria por ela, que seu desejo não mudaria e que, quando Mariana se sentisse pronta, ela estaria lá. Ela não sabia se isso era verdade, mas estava disposta a pagar para ver. Finalmente, tendo decidido o que faria, respondeu a mensagem de Flávia: “Ok. Mais tarde eu passo aí.”

Assim que Flávia acordou, pegou seu celular para ver se Mariana tinha dado algum sinal de vida. Se sentiu aliviada ao ver que a menina tinha respondido sua mensagem e que elas se encontrariam naquele mesmo dia. Afinal, se demorasse mais tempo, Flávia poderia perder a coragem. Ela sabia o que precisava fazer, e tinha decidido que faria. Pensou em ligar para Fernanda e conversar com ela sobre sua decisão, mas achou que seria abuso de mais e desistiu. Se levantou da cama e foi se distrair com a TV, até que, algumas horas depois, o interfone tocou. Era Mariana.

Mariana entrou no elevador ensaiando a conversa que teria com a namorada em poucos minutos. Tinha demorado meses para se dar conta do que queria e, agora que sabia, não largaria mão disso. Assim que saiu do elevador, viu que Flávia a esperava na porta de casa.

– Precisamos conversar. – Mariana disse, antes mesmo de cumprimentar a namorada.

– Eu sei. Entra.

As duas se cumprimentaram com um abraço rápido e Mariana entrou no apartamento de Flávia. As duas se sentaram no sofá.

– Antes de qualquer coisa, me ouve. – Mariana falou, e Flávia ficou calada. – Ontem, quando eu saí daqui, eu não fui pra casa. Fui encontrar a Luiza. Ela se declarou pra mim e me beijou.

– Mari… – Flávia a interrompeu.

– Deixa eu falar!

– Não, deixa eu falar.

– Que foi?

– Eu vou te dar um presente.

– Quê?

– Eu vou te dar um presente.

– Não percebeu que estamos brigadas?

– Por isso mesmo.

– Que presente?

– Eu vou terminar com você.

– Oi?

– Olha, eu sei que você é apaixonada pela Luiza. Eu sempre soube, na verdade. Só não queria admitir. Queria pensar que tudo daria certo entre a gente, e acabei me apaixonando.

– Nada disso faz sentido.

– Claro que faz.

– Por que vai terminar comigo, se está apaixonada por mim?

– Porque eu te amo.

Sem que precisasse explicar, as duas se entenderam. Desde que se conheceram, já tinham debatido muito sobre o amor e seu significado. E as duas concordavam a respeito disso.

– Eu também te amo. – Mariana respondeu. – E por isso não posso continuar vivendo uma mentira. Você sabe que é muito importante pra mim, sabe que é minha melhor amiga. Eu tentei ao máximo esquecer o que eu sentia pela Luiza, e tentei fazer a gente dar certo.

– Eu sei. Mas não é assim que funciona. E eu acho que você finalmente aprendeu isso… Você não pode se obrigar a esquecer alguém. Não pode se obrigar a ficar feliz. Acontece quando tem que acontecer.

– É, eu sei. E foi muito egoísta da minha parte te envolver nisso tudo. Então, desculpa…

– Não foi sua culpa. Nós duas nos deixamos levar.

– Não, você falou que a gente não devia fazer isso. Fui eu que insisti.

– Mesmo assim, não é sua culpa, Mari. Nós cometemos erros, as duas, e agora temos que lidar com eles. Mas tudo vai dar certo.

– É, eu sei que vai. Você é a melhor pessoa que eu já conheci. Algum dia você vai encontrar alguém que te mereça.

– É, eu sei. – Flávia sorriu, segurando o choro. – Agora vai, vai atrás do que você quer.

– Tá falando da Luiza?

– Claro, né!

– Eu não vou atrás dela agora.

– Por que não?

– Preciso de um tempo só pra mim. E era isso que eu ia te dizer hoje. Ia pedir um tempo, pra pensar muito bem no que eu quero. Não só romanticamente, mas em relação a tudo.

– Entendi…

– Flá…

– Fala.

– Nós podemos continuar sendo amigas?

– Vamos dar um tempo, tá? Eu quero ser sua amiga, só preciso dar um tempo pra isso tudo passar.

– Tudo bem.

– Até mais, Mari.

– Até mais, Flá.

Com um último abraço apertado e um último selinho, as duas se despediram. Mariana saiu de lá sentindo uma felicidade que não sentia havia muito tempo. Ela sabia, de alguma forma, que tudo estava prestes a mudar, que sua vida seria diferente. Resolveu que passaria a pensar mais em si mesma, que daria atenção aos estudos para se formar logo, que arranjaria um estágio ou um emprego, para que talvez pudesse descobrir o que e quem queria ser. Mas, antes de qualquer coisa, precisava falar com uma pessoa. Pegou um ônibus e foi diretamente para a casa de Raphael, que abriu um sorriso enorme quando a viu parada na porta.

– Sumida!!! – ele disse.

– Oi! Tudo bem? – os dois se abraçaram e se sentaram no sofá da sala.

– Tudo, e você? Como tá a vida? E a Flávia?

– Tudo muito confuso. – ela riu. – Eu e Flávia terminamos.

– Quando???

– Agora.

– Por isso que você veio pra cá? Quer conversar?

– Não, eu tô bem. Pela primeira vez em muito tempo, resolvi fazer algo por mim mesma.

– Ah, é? O quê?

– Vou deixar os relacionamentos de lado por um tempo e me focar em descobrir o que eu quero da vida.

– Como assim?

– O que eu quero fazer, ué. Com o que eu quero trabalhar… Eu sei que não gosto do curso de Letras, mas ainda não decidi do que eu gosto. Então vou descobrir.

– E como você pretende fazer isso?

– Lembra que, quando nós éramos mais novos, tivemos a ideia de abrir um restaurante juntos?

– Lembro.

– Então…

– É isso que você quer fazer?

– Não sei, ué. Mas vou descobrir.

– E como?

– Vou tentar arranjar um emprego ou um estágio em alguma coisa relacionada a administração.

– Não vai ser fácil… Mas boa sorte.

– Valeu. – ela abriu um sorriso.

– Mas me conta o resto! Como vocês terminaram?

– Ela terminou comigo.

– Por quê?

– Porque sabe que eu sou apaixonada pela Luiza.

– Você ainda não desencanou?

– É meio difícil de fazer isso quando a criatura se declara e te beija…

– Pera aí!! Ela se declarou pra você? Há quanto tempo a gente não se fala, hein?

– Nos falamos há pouco tempo, é que tudo aconteceu agora. – ela riu.

– Quando foi isso?

– Ontem de noite.

– E o que você fez?

– Eu saí correndo de lá quando a Flávia ligou. Mas ela nem sabia que eu tinha ido me encontrar com a Luiza. Aí, hoje, contei tudo pra ela, e ela terminou comigo.

– Por causa disso?

– Não. Ela já tinha decidido terminar comigo antes.

– Entendi… E o que você vai fazer agora?

– Já disse.

– Em relação à Luiza…

– Nada, ué.

– Ela se declarou pra você e você saiu correndo! Não vai fazer nada?

– Ah, esqueci de falar… Ela deixou uma mensagem na caixa postal de madrugada.

– O que ela disse?

– Que me ama e que nunca teve tanta certeza a respeito de nada antes. Disse que esperaria por mim, não importa quanto tempo demorasse, e que me provaria que tudo que ela disse é verdade.

– Você falou com ela depois?

– Não, né.

– Você devia ligar pra ela.

– Pra quê?

– Pra explicar que você precisa de um tempo.

– E por que eu faria isso?

– Porque você gosta dela, idiota. – ele riu. – Ela pode ter falado que vai te esperar, mas você precisa avisar que tá interessada.

– Tá bom, vou pensar.

– Vai pensar, nada! Confia em mim.

– Tá bom, chato! Mas é bom eu confiar mesmo. Afinal, o seu relacionamento é o único que tá indo bem. – ela riu. – Cadê o Mateus?

– Foi visitar os pais hoje.

– E você não foi?

– Não. Na verdade, fui eu que pedi para os pais dele convidarem ele pra sair.

– Por quê?

– Tô preparando uma surpresa. Quer me ajudar?

– Que tipo de surpresa?

– Vou chamar ele pra morar comigo.

– Jura?

– Juro!

– Que feliz, Rapha!

– Pois é. – ele abriu um sorriso enorme.

– Mas, pera aí… E seus pais?

– Ah, eu contei pra minha mãe há uns dias.

– E como ela reagiu??

– O que você acha?

– Que ela disse que não é coisa de Deus. – ela riu.

– Foi basicamente isso. – ele riu também. – Mas ela acabou aceitando, do jeito dela…

– Como assim?

– Disse que era contra, mas que, se isso me fazia feliz, tudo bem…

– É, melhor do que nada…

– Pois é.

– Mas me diz! Como vai fazer o pedido?

– Bem, já tem algumas coisas dele aqui em casa. Então, estou separando um lado do armário e algumas gavetas pra ele. Além disso, vou comprar rosas e velas pra colocar no quarto.

– Gente, que chique!

– Tem que ser perfeito, né! Afinal, é especial.

– É, eu sei! E você precisa de ajuda com o quê?

– Preciso comprar as velas e as rosas ainda. Se importa de ir naquela floricultura que tem na esquina? Acho que vendem velas lá também.

– Tá bom. Me dá a chave.

– Toma.

Mariana voltou, alguns minutos depois, com uma dúzia de rosas vermelhas e vários pacotes de velas perfumadas e coloridas. Raphael foi posicionando as velas no quarto enquanto a menina tirava as pétalas de metade das rosas para espalhar por cima da cama. Quando os dois terminaram, Raphael mandou uma mensagem para a mãe de Mateus avisando, e Mariana se despediu do amigo. Saindo de lá, a primeira coisa que fez foi ligar para Luiza.

– Oi, Mari. – a menina atendeu.

– Oi.

– Ouviu minha mensagem?

– Ouvi.

– E aí?

– A Flávia terminou comigo.

– O quê? Por minha causa?? Você tá bem?

– Tô bem.

– Mas foi por minha causa? Foi culpa da mensagem?

– Foi por sua causa, sim, mas não foi culpa da mensagem.

– Desculpa.

– Eu preciso saber.

– O quê?

– Se é verdade.

– O que eu disse ontem?

– É.

– Sim, é.

– Eu também sou apaixonada por você. Mas não posso lidar com isso agora, preciso de um tempo pra mim. Eu sei que você disse que ia me esperar, mas não posso cobrar isso de você. Só queria que você soubesse.

– Tudo bem. Me procura quando estiver pronta, tá bom?

– Tá bom. E, enquanto isso, acho que a gente devia se afastar um pouco.

– Tudo bem.

– Então, até mais, Luzy.

– Até mais, Mari. Te amo.

– Beijos, Luzy.

– Beijos.

Depois que a Chuva Cai – Capítulo 16

Luiza se arrumou calmamente, apesar de ter recebido a mensagem de Mariana que informava que ela a esperava na porta do prédio. Ela conhecia exatamente os sentimentos que causava em Mariana, e sabia exatamente como fazê-lo. Vestiu um short com uma blusa regata branca que mostrava um pouco de decote, mas nada muito exagerado, e que era levemente transparente, apenas o suficiente para deixar a amiga com um desejo ainda maior de conhecer as curvas de seu corpo. Ela se arrumou de uma maneira tão minuciosa que chegou a se assustar com sua beleza quando se olhou no espelho. Ela nunca tinha sido uma mulher sedutora, nunca tinha planejado o que vestir com a intenção de provocar alguém, e se surpreendeu com sua atitude. Mas nada disso importava. Afinal, hoje seria um dia especial. E a briga de Mariana com a namorada só poderia ajudar na realização dos sonhos de Luiza. Ou pelo menos, era isso que ela pensava.

Depois de incontáveis minutos de espera e de sabe-se lá quantos cigarros fumados por Mariana, Luiza finalmente desceu.

– Oi, Mari!

– Porra, finalmente né! Já tava quase desistindo e indo pra casa. Por quê demorou tanto?

– Ah, tava ajudando minha mãe com umas coisas… – ela mentiu e tentou desconversar. – Melhorou da ressaca?

– Melhorei. Depois que você me ligou, a Flávia me deu uns remédios.

– Ah tá… Vamos?

– Vamos!

As duas passaram o curto caminho até a praia que ficava perto da casa de Luiza conversando sobre detalhes da última festa, principalmente sobre o rolo de Marcos. Mas a fofoca foi interrompida quando as duas pararam para decidir para onde iriam. Acabaram decidindo por um quiosque que nenhuma das duas conhecidas e arranjaram uma mesa.

– Vamos beber uma cerveja? – Luiza perguntou, rindo.

– Ah, foda-se, vamos. Já tô melhor. – ela riu também.

– Tá falando sério?

– Tô, vamos lá!

Luiza chamou o garçom e pediu uma cerveja, que não demorou muito a chegar. Apesar de já ter decidido o que faria, Luiza precisaria de um encorajamento a mais para isso, e para isso servia a bebida. As duas começaram a conversar sobre coisas aleatórias, relativas a Marcos, à faculdade, às festas, e continuaram nesse ritmo até acabarem com três garrafas de cerveja.

– Luzy, eu preciso ir, antes que minha mãe reclame… – Mariana disse, antes que a amiga pudesse pedir outra cerveja.

– Pode ficar só mais alguns minutos? Preciso te falar uma coisa.

– Claro, fala.

– Eu menti pra você no Ano Novo.

– Como assim?

– Eu sou, sim, apaixonada por você. Passei os últimos meses pensando em você a cada segundo.

– E por que você mentiu? – Mariana tentava manter a calma.

– Porque eu achava que não seria capaz de te fazer feliz. Achava que você ficaria melhor com a sua amiga. Resumindo, eu sou uma idiota e te deixei ir. E me arrependo muito disso.

– E como eu sei que isso é verdade? Você já disse que gostava de mim antes e depois mudou de ideia. Como eu posso saber que isso não vai acontecer de novo?

Luiza colocou sua mão em cima da mesa, perto do ponto onde Mariana repousava sua própria mão, e, aos poucos, aproximou seu rosto do dela. Finalmente, fez com que seus dedos e seus lábios se encontrassem. Ficaram muitos minutos sem falar nada, apenas sentindo a presença uma da outra, até que o celular de Mariana começou a tocar. Ela pegou o aparelho e viu que era sua namorada.

– Desculpa, preciso ir embora.

Sem esperar resposta, Mariana se levantou e foi embora. Luiza decidiu continuar, pediu mais uma cerveja, pegou seu celular e discou um número.

– Alô.

– Preciso de companhia agora. Pode me encontrar na praia, perto da minha casa?

– Claro, tô indo. – Marcos respondeu do outro lado da linha.

Como Marcos e Luiza moravam perto um do outro, não demorou muito até que ele chegasse onde a amiga estava. Se cumprimentaram com um abraço e, antes que um dos dois pudesse falar qualquer coisa, Luiza começou a chorar nos ombros dele. Ele, sem comentar nada, continuou abraçando-a até que ela estivesse pronta para conversar.

– Eu tentei… – ela disse, ainda chorando e ainda abraçada ao amigo.

– Tentou o quê?

– A Mari… – conforme ela falava, mais lágrimas saíam de seus olhos.

– Calma, Luzy… Me explica o que houve.

– Eu disse pra ela.

– Disse o quê?

– Que… – ela respirou fundo, se soltou do amigo e voltou a se sentar. – Que eu sou apaixonada por ela e fui uma idiota antes.

– E aí?

– Nós nos beijamos e ficamos um bom tempo juntas.

– E o que houve?

– O telefone dela tocou e ela saiu correndo daqui. Acho que era a namorada dela.

– Eu não sei o que te dizer, Luzy…

– Não precisa me dizer nada, eu já sei que fiz merda. Nunca devia ter deixado isso acontecer, devia ter sido honesta desde o começo, mas não! Mas tudo bem… Só me faz companhia por um tempo?

– Claro.

Os dois continuaram bebendo, mas ficaram calados por muito tempo. Luiza pegava o celular o tempo todo, o que não passou despercebido por Marcos.

– Liga pra ela. – ele disse.

– Não é uma boa ideia.

– Mas é o que você quer fazer.

– E de que importa o que eu quero fazer?

– Luzy, o que você queria ter feito no Ano Novo?

– Como assim?

– O que você teria ter feito ou falado pra ela?

– Ah, queria ter falado o quanto eu gosto dela, o quanto eu quero ficar com ela.

– E você não falou.

– Pois é.

– E deu no que deu.

– Porque eu não falei?

– Porque você não fez o que você queria. Para de analisar de mais as coisas e faz o que você quer. Se der errado, pelo menos você vai saber que tentou.

– Tá bom, você me convenceu. – ela deu um risinho e discou o número de Mariana. – Deu que tá desligado.

– Talvez tenha acabado a bateria. Espera um pouco e depois liga de novo.

– Tá bom.

Marcos contou para a amiga detalhes de sua vida, para tentar distraí-la e animá-la, e os dois ficaram conversando sobre isso por horas. Chegaram até a rir juntos em vários momentos, apesar de as coisas não estarem indo bem para nenhum dos dois. Marcos não conseguia parar de pensar em Bernardo e, por mais que tivesse aconselhado Luiza a fazer o que queria e procurar quem ela amava, ele mesmo não conseguia fazer isso. O medo de se magoar outra vez era muito maior. Mas talvez a situação da amiga fosse diferente. Ele sabia, sempre soube, que Mariana era louca por Luiza e tinha certeza de que, algum dia, as duas ficariam juntas, não importava quantos obstáculos fossem colocados no caminho delas. Mas, entre ele e Bernardo, era diferente. Ele tinha se declarado no momento em que achou que devia fazer isso, e o menino tinha o rejeitado. Talvez não fosse para ser. Afinal, quando um não quer, dois não brigam.

Finalmente, depois de umas 2h de conversas e risos, os dois resolveram que seria melhor ir embora. Pediram a conta e pagaram.

– Marcos… – Luiza falou, antes que eles pudessem se levantar.

– Fala.

– Vai pra minha casa hoje? Eu não queria ficar sozinha… A gente pode ver um filme ou algo assim.

– Tudo bem. Também não queria ficar sozinho, vai ser bom pros dois.

– Valeu. – ela sorriu e abraçou o amigo.

Os dois foram para a casa de Luiza e continuaram a “festa” até de madrugada. Conversaram muito, trocaram muitos segredos e dúvidas. Depois de um tempo, Marcos resolveu contar à amiga o que tinha acontecido entre ele e Bernardo.

– Lembra que eu te disse que ele me mandou mensagem?

– Lembro.

– Eu não respondi e, uns dias depois, ele me ligou, pedindo pra gente se encontrar.

– Eu sei…

– Sabe? Como??

– A Mari me contou… Não fica puto com ela por causa disso.

– Não, tudo bem. Eu queria te contar, mas não sabia como. Você acompanhou minha história com ele desde o começo, desde os tempos de colégio.

– É, eu sei.

– E ele era seu amigo, também.

– Eu nem tenho falado mais com ele.

– Por que não?

– Não sei… A gente só se afastou, eu acho.

– Espero que não tenha nada a ver comigo.

– Não tem, não.

– Que bom…

– Mas bem… Eu sei o que aconteceu, mas não sei como você se sente em relação a isso tudo.

– Você pode imaginar, né?

– Posso. Mas me conta.

– Eu tô mal, Luzy… Tô tentando ficar com outras pessoas pra esquecer ele, mas é difícil.

– Olha, eu sei que ele gosta de você… Ele só é, sei lá, complicado.

– Todo gay é complicado. – ele riu.

– Nem me diga!

– Mas, mesmo assim…

– Eu sei, Marcos.

Os dois ficaram algum tempo em silêncio, até que resolveram conversar sobre coisas mais alegres. Colocaram um CD da Gal Costa para tocar e passaram muito tempo trocando opiniões sobre música. Com tudo aquilo, Luiza já tinha quase se esquecido de tudo de ruim que havia acontecido com Mariana naquele mesmo dia. Finalmente, um pouco antes de irem dormir, resolveu ligar para ela de novo.

– Tá dando desligado de novo. – ela disse.

– Talvez ela não queira falar com ninguém.

– Pois é… Melhor deixar pra lá, então.

– Você sabe o que você quer falar pra ela?

– Sei, claro.

– Então deixa uma mensagem.

– Às vezes eu até esqueço que isso existe. – ela riu. – Não é melhor só escrever uma mensagem e mandar?

– Eu acho melhor você gravar, mesmo.

– Tudo bem, então.

Luiza ligou para Mariana mais uma vez e gravou um recado na caixa postal. Depois disso, quando já estava quase amanhecendo, os dois foram dormir.

Depois que a Chuva Cai – Capítulo 15

            Mariana acordou com o barulho do celular. Abriu os olhos, sentindo uma dor de cabeça horrível, e procurou por sua namorada na cama, mas ela não estava lá. Se levantou e foi até a cômoda perto da porta, onde estava o celular, e isso foi um esforço inimaginável. Ela estava com ressaca, e odiava essa sensação.

– Alô.

– Oi.

– Luzy?

– É.

– Fala.

– A gente pode se encontrar hoje?

– Você não tá na faculdade?

– Não consegui acordar…

– Tá de ressaca também?

– Não. – ela riu – Você tá?

– Infelizmente…

– Mas então…

– Ah, se encontrar hoje.

– É.

– Olha, se eu conseguir sair da cama de novo, eu te aviso. – ela riu, fazendo com que sua cabeça doesse mais ainda, o que causou um gemido de dor.

– Quê?

– Não posso rir.

– Entendi. – Luiza quase gargalhou.

– Não ri do meu sofrimento não, tá?

– Tá bom, parei.

– Mas voltando… Eu te aviso. Eu ainda tô na casa da Flávia, então nem tem como eu te chamar pra vir aqui. Mas eu pretendo sair daqui logo, só preciso esperar a ressaca passar.

– Tudo bem. Mas por que quer sair daí logo?

– Ah, a gente brigou ontem…

– Ah tá. Você tá bem?

– Tirando a ressaca, sim.

– Não tá chateada?

– Ah, sei lá. Eu lembro que a gente brigou, mas nem sei direito o que houve.

– Entendi… Bem, qualquer coisa me avisa.

– Tá bom.

– Beijos.

– Beijos.

Mariana, com passos lentos, voltou até a cama e se deitou novamente. Estava quase pegando no sono de novo, quando ouviu Flávia entrando no quarto. Mesmo sem saber o motivo, Mariana estava irritada com a namorada. Não sabia direito o que havia acontecido entre elas no dia anterior, mas sabia que tinham ido dormir brigadas. Mesmo assim, não conseguiu evitar e se virou na direção da porta quando ouviu os barulhos.

– Já acordou? – Flávia perguntou, com um sorriso no rosto.

– Já. – Mariana retribuiu o sorriso.

– Que droga…

– Por quê?

– Ia te fazer uma surpresa…

– Surpresa?

– É.

– Que surpresa?

– Você vai ter que esperar. Não vai ser como eu tava planejando, mas ainda vai acontecer.

– Entendi.

– Eu vou lá terminar. Já volto.

– Tá bom.

– Te amo, tá?

Mesmo sem conseguir explicar, Mariana só foi capaz de responder a namorada com um sorriso, sem retribuir o “te amo” e, talvez, sem retribuir o sentimento. Mas isso, aparentemente, não deixou Flávia incomodada. Ela saiu do quarto e, alguns minutos depois, voltou com uma bandeja de café da manhã, do tipo daquelas que só se vê em filmes, com pão, bolo, frutas, suco e uma rosa. Flávia apoiou a bandeja na cômoda, ajudou a namorada a se sentar, colocou a bandeja em cima dela e, logo depois, se sentou ao lado de namorada, que sorriu para ela.

– Obrigada. – Mariana falou.

– De nada. Queria me desculpar por ontem…

– Tudo bem.

Mariana tinha a ligeira impressão de que a briga não tinha sido causada por Flávia, mas por ela mesma. No entanto, se sentiu feliz com o pedido de desculpas da namorada e com o café da manhã, mesmo estando enjoada demais para comer qualquer coisa. Ela passou algum tempo encarando todos os itens da bandeja, vendo se seu estômago aceitaria algo, mas, por fim, acabou comendo apenas um pedaço de melancia e bebendo um gole do suco.

– Não vai comer mais? – Flávia perguntou.

– Eu realmente gostei do que você fez, mas eu tô enjoada…

– Hm… Tudo bem.

– Eu acho que vou voltar a dormir.

– Tá bom.

Flávia se inclinou para dar um beijo na namorada. Depois, pegou a bandeja e se retirou. Mariana voltou a deitar na cama, se cobriu e virou para o lado. Alguns minutos depois, Flávia voltou com dois comprimidos e um copo d’água.

– Toma, você vai se sentir melhor.

– O que é isso?

– Remédio pra enjoo e pra dor de cabeça.

– Tá, valeu.

Mariana voltou a se sentar na cama, enfiou os dois comprimidos na boca, bebeu alguns goles d’água e voltou a se deitar, sendo coberta por Flávia. Mariana não estava feliz, mas não sabia se o relacionamento das duas tinha algo a ver com isso. A namorada era muito boa com ela, sempre fazia tudo que ela queria e se esforçava ao máximo para agradar. E, por mais que ela tentasse fazer o mesmo, sentia que isso exigia muito esforço da parte dela e, por algum motivo, sentia que isso não era justo, com nenhuma das duas. Mas, ao mesmo tempo, não sabia se isso era normal num relacionamento, se era normal as pessoas se esforçarem. Mesmo que nunca tivesse vivido algo do tipo, sentia que amor verdadeiro era fácil, que não exigia esforços nem policiamentos. Você poderia ser quem você é e fazer o que quer e isso, por si só, faria a outra pessoa feliz. Porque, quando você ama de verdade, não consegue parar de pensar na outra pessoa e, portanto, tudo é natural. Ou, pelo menos, era nisso que ela acreditava. Mas ela também acreditava que isso algum dia aconteceria com ela. Ela conheceria alguém, elas se apaixonariam e tudo seria fácil. Não seria complicado como foi com Luiza e ela nunca se sentiria como estava se sentindo naquele momento, com Flávia. E tudo que ela precisava fazer era esperar. Porque, algum dia…

Mariana acordou algumas horas depois se sentindo bem melhor. Mas, infelizmente, tinha perdido quase seu dia inteiro, pois já era fim de tarde. Sem muitas demoras, se levantou da cama e foi procurar a namorada. A encontrou na cozinha, onde ela preparava algo.

– Oi. Finalmente acordou, é?

– Pois é. Tá fazendo o quê?

– Nossa janta. Você vai jantar aqui, né?

– Não vai dar… Você sabe que se eu não voltar pra casa logo, minha mãe vai implicar.

– Ah… Tudo bem, eu entendo.

– Foi mal. Vou pro banheiro trocar de roupa.

– Tá bom.

Mariana tirou a roupa que tinha pego emprestada da namorada e vestiu sua própria roupa, que já estava seca. Se despediu de Flávia com um simples selinho e, assim que chegou na porta do prédio, ligou para a mãe, para avisar que demoraria um pouco mais para voltar para casa, e para Luiza.

– Alô – Luiza atendeu.

– Oi. Tô saindo da Flávia agora. Onde a gente se encontra?

– Podemos ir pra um barzinho que tem aqui perto de casa.

– Ai, mais bebida, não, por favor!

– Tá bom. – ela riu. – Mas me encontra aqui perto, mesmo assim. A gente pode ir pra praia. – Luiza morava em Ipanema, quase de frente para a praia.

– Tudo bem. Tô indo.

– Tá, até mais.

– Até. Beijos.

– Beijos.

Mariana não demorou muito para chegar na porta do prédio de Luiza. Enquanto fumava um cigarro e esperava a menina descer, recebeu uma ligação da namorada, que achou melhor ignorar. Afinal, Flávia pensava que ela estava em casa, e nunca poderia saber que, na verdade, tinha ido se encontrar com Luiza. Por mais que não se lembrasse de muitos detalhes a respeito da briga, sabia que tinha algo a ver com Luiza. E sabia que sua infelicidade também estava relacionada a ela, de alguma forma que ela ainda não sabia qual era. Na verdade, eram muitas as coisas que ela não sabia e muito poucas as coisas sobre as quais ela tinha certeza. De fato, só tinha certeza de uma coisa: tinha voltado ao ponto em que estava no dia em que terminou o relacionamento com Raphael, apesar de muita coisa ter mudado desde então, e queria sair disso de novo.