“-I see everything so clearly now. Everything! I married you for all the wrong reasons.

-What’s that supposed to mean?

-You’re brilliant. I wanted someone to talk to. You loved classical music, you loved art, you loved literature. You loved sex! You loved me!

-Those sound like pretty good reasons to me!

-Yes! Exactly! That’s the problem! That’s the problem! It was rational, it made sense!

-I don’t know what went wrong. When you examine it, there is so much right about us.

-On paper we’re ideal. But life isn’t on paper.”

Whatever Works

“If I have to eat nine servings of fruits and vegetables a day to live, I don’t want to live. I hate goddamn fruits and vegetables. And your omega-3’s and the treadmill and the cardiogram and the mammogram and the pelvic sonogram and, oh, my God, the colonoscopy! And with it all, the day still comes when they put you in a box and it’s on to the next generation of idiots who’ll also tell you all about life and define for you what’s appropriate.”

Whatever Works

Acontece

Ouviu novamente o barulho de sua espera. O barulho da porta que abria novamente para mostrar olhos desconhecidos. Chegava a se odiar por se sentir assim, com essa inquietação. Olhava o celular e sentia que os segundos demoravam minutos a passar. Deu mais um gole. Água. Não queria água, queria cerveja. Uma cerveja e um cigarro. Queria se entregar àquela alienação, àquilo que fazia parte de seu ser. Pegou o cardápio. Aquele definitivamente não era aquele tipo de lugar. Aquele do qual ela gostava. Pessoas arrumadas, conversas supérfluas, olhares vazios. Não gostava daquelas pessoas, não gostava daquele lugar. Uma vela acesa na sua frente, a luz que poderia ser a luz da lua, o silêncio cortante de pessoas que viveram anos sem se conhecer. É, precisava de uma cerveja. E de um cigarro. O primeiro não existe sem o segundo. Mas olhou o celular mais uma vez. Tinham marcado de se encontrar às oito. Era oito e cinco. Chegaria a qualquer momento, talvez. Preferiu esperar mais. Não seria bom se ela a visse bebendo cerveja e fumando cigarro. Achava que não seria. Havia se sentido como uma daquelas pessoas nas poucas vezes em que havia tentado. Sentia-se reprimida. Você sabe que eu não gosto quando você faz isso, então por que você faz? Não eram necessárias palavras. Às vezes o silêncio diz mais. Às vezes o silêncio torna nítida uma frase inteira, uma conversa inteira. O barulho, de novo. Resolveu não olhar, não queria mais saber também. Talvez desse tempo para pelo menos um cigarro. Não sabia que horas ela chegaria mesmo. Não sabia nem se ela iria. Abriu a bolsa, tocou o maço. Largou. Foda-se. Ouviu uma voz familiar atrás de si e virou-se.

– Oi.

– Oi.

– Tô com fome, se importa se a gente pedir logo?

– Não.

– O que você quer?

O que eu quero? Quero uma cerveja e um cigarro.

– Pode pedir o mesmo que você.

– E pra beber?

– Já pedi água.

– Tá bom.

– Você se atrasou.

– Quê?

– Você se atrasou.

– É.

– Tava onde?

– A caminho.

Um cigarro. Olhou de novo para a bolsa. Talvez conseguisse sair, só precisava de uma desculpa. Não. Precisaria também de algo para disfarçar o cheiro, mas não tinha nada.

– Como foi seu dia?

– Foi legal e o seu?

– O que você fez?

Fumei tudo que não poderia fumar com você por perto. Bebi cerveja, mas pouca, para que não soubesse.

– Saí com uns amigos. E você?

– Eu também.

Se arrependia agora de ter desejado que ela chegasse, de ter saído para se encontrar com ela. Sentia falta. Sentia falta dela, mas às vezes sentia mais falta de ser quem era. A comida, finalmente. Não tinha fome, mas teria que bastar.

– Come devagar.

– Quê?

– Você tá comendo muito rápido.

– Desculpa.

Desculpa? Desculpa pelo quê? Por ser quem eu sou? Não. Desculpa por você não gostar de mim como eu sou. Desculpa por você não gostar que eu fume, por não gostar que eu beba, por não gostar da forma como eu como. Desculpa. Desculpa por não ter sido quem você queria. Mas por que você gostava de mim, afinal? Um dia, tinha sido tão importante. Nossa, ela gosta de mim. Ela é fantástica e ela gosta de mim. Mas aí o tempo passou. Não era mais necessário dizer que se gostavam. Mas não porque sabiam disso, mas porque já não fazia mais sentido. Já tinham vivido muitas coisas juntas. Algum dia, isso não tinha sido tão importante. Tinha começado com algumas pequenas observações. Fumar faz mal pra você. Beber faz mal. Você deveria comer melhor. E começou a fumar menos, beber menos, comer melhor, e sentiu falta de quem ela realmente era. E aí aquele sentimento, que já nem sabia se era um sentimento mesmo, tinha deixado de existir. Abriu a bolsa e pegou algum dinheiro.

– Eu preciso ir.

– Você não terminou de comer.

– Tudo bem. Tchau.

Colocou o dinheiro perto dela, tocou pela última vez a mão dela, olhou pela última vez dentro do olho dela. Sentiu vontade de chorar. Desculpa. Sempre senti que você gostava de mim pelo que eu poderia ser, não pelo que eu era. Mas eu sempre fui o que eu sou. Desculpa. Deixou que algumas lágrimas caíssem, já de costas. Dessa vez o barulho incomodou ainda mais do que antes. Sentia saudade. Amava ela, tinha certeza. Mas não amava a forma que se sentia quando tinha que se controlar para não ser quem era. Até esqueceu de acender o cigarro. Ela era muito mais importante do que o cigarro, mas ela não entendia isso. Não entendia que a falta de vontade de fumar e a vontade de mudar eram os sentimentos mais profundos que poderia sentir por ela. As pessoas sempre pedem mais do que podem ter, sem saber que estão recebendo tudo que a outra pode dar. Vai ver tudo-que-eu-posso-dar não é bom o suficiente para ela. Vai ver tudo-que-ela-pode-dar envolve a reclamação, a necessidade de mudança. Vai ver elas simplesmente não eram feitas uma para a outra. Acontece.

Correu os dedos pela pele dela e sentiu seu coração bater mais rápido. Foi naquele segundo que seu dia começou, ou que sua vida começou. Não havia mais distinção de tempo e espaço. Existia apenas ali, apenas para ela. Olhou fundo nos olhos dela, tentou decifrar quem era ela, o que ela sentia, o que ela pensava. Até se dar conta de que os toques eram imaginários, os olhares eram imaginários, os sentimentos eram imaginários. Nada daquilo existia, era pura ilusão. Abriu os olhos, mas só podia ver a ponta de seu cigarro aceso. Deitada num quarto escuro, com um cigarro na mão, pensando nela, que nada mais era do que uma criação sua. Mas sentia tanto! Tinha tanto para dar, para alguém que nem existia. Continuou em silêncio, afinal, não tinha o que falar, com quem falar. Todas as palavras estavam presas dentro de sua garganta. Ouviu o ronco de sua barriga e acendeu mais um cigarro. Como se ele fosse capaz de substituir o espaço vazio dentro de seu corpo. E não era a falta de comida que incomodava, nem a sede, era a falta dela. Sua pele, seu cheiro, seu calor, seu olhar, seu jeito. Era incrível como algo que nem existia podia fazer tanta falta, e fazia. Pegou o celular, precisava falar com alguém, mas com quem? Com ela? Quem era ela? Onde ela estava? O que estava fazendo? Não tinha com quem falar. Mesmo se tivesse, não teria o que dizer. Se levantou e guardou o celular no fundo da gaveta, desligado. Era mais fácil se manter distante daquele mundo. Do mundo ao qual ela já pertenceu algum dia. Resolveu sair, talvez beber uma cerveja, mesmo sozinha. Procurou em todos os rostos o olhar dela. Procurou em todos os passos o jeito dela. Chegou a estender a mão e se atreveu a experimentar alguns toques, atrás do toque dela. Mas não existia. Não era possível. Deveria existir, em algum lugar. Não poderia ter imaginado algo tão bom, tão destruidor. Pegou um pedaço de guardanapo e resolveu rabiscar algumas coisas, mas só tinha uma coisa a dizer, e era essa a coisa que estava cada vez mais presa no fundo de sua garganta, no fundo de seu coração. Porque cada ato só espantava cada vez mais aquele pensamento, aquelas palavras. Mas não era tão difícil. Tentou dizer em voz alta, mesmo que fosse para si mesma, mas não saía. Conheceu alguém. Não era o mesmo toque, não era o mesmo jeito, não era o mesmo beijo, não era a mesma voz, não era o mesmo nada. Mas serviria, pelo menos para aquela noite serviria. Então voltou para casa. Acabou dando o braço a torcer e fez algo para comerem. Mas não se atreveu a dar mais de uma garfada. Sentia um gosto na boca, gosto de não sabia o quê. Não podia arriscar que ele sumisse. E com certeza não seria capaz de reproduzi-lo. Largou o prato e esperou. Algumas palavras sem sentido, algumas sensações trêmulas, algumas ações inesperadas. Era apenas seu corpo reagindo à falta de. Ou ao excesso de. Não sabia mais. Foram para o quarto e se despiram. Tudo muito mecânico, muito forçado. Mas também desistiu. A verdade é que não queria esquecer. Não queria parar de pensar naquele toque, naquele jeito, naquele beijo. E talvez a presença de outras coisas distorcesse a memória dela. Ou a imaginação dela. Não sabia mais se era pura imaginação. Podia sentir dentro de si tudo que havia vivido. E os sentimentos continuavam. Se desculpou. “Não é você, sou eu” e a outra foi embora. A outra. Para que queria outra? Não queria. Queria ela. Acendeu mais um cigarro. Não, ele não era capaz de suprir a falta, mas certamente a distraía. Se deitou novamente, com o rosto virado para o travesseiro. Sentiu um cheiro. Eu sabia que era verdade, sabia que não era imaginação. Tanto tempo de dúvida, e a resposta esteve bem ao lado dela todo aquele tempo. Nem sabia mais quanto tempo era. Uma vida inteira, um dia. Se lembrou de tudo, mais claramente do que se lembrava da outra que havia acabado de sair. E chorou. Fechou os olhos, no escuro, imaginando toda a vida que tinha deixado passar, toda a saudade que sentia de algo que tinha até esquecido que tinha vivido. As lágrimas foram molhando o travesseiro, as lembranças ficaram cada vez mais forte. Podia vê-la deitada ao seu lado, podia sentir seu toque, seu cheiro, seu beijo, seu calor.  Eu te amo, desculpa. Quis fazer de você a mulher mais feliz do mundo, tive medo. Sentiu um alívio ao finalmente libertar o que estava preso dentro de si. Um alívio que saiu em forma de suspiro. Seu último suspiro.

Eu te amo. E te amo porque você é, e não por quem você é. Pode não fazer muito sentido, mas é assim que é. Não sou boa com as palavras. Não consigo escrever sem distanciamento. Só consigo passar pro papel o que eu tô sentindo de uma maneira superficial, sem mostrar realmente o que eu tô sentindo. Mas eu te amo. E tenho vontade de gritar isso pro mundo, mas não posso. Acho que eu não posso. Ou que eu não devo. Porque parece meio irreal, meio sem sentido, meio sei lá. Uma semana… E alguns dias. Mas de que importa o tempo? De que importam rótulos? Você não é nada minha, mas ao mesmo tempo é tudo pra mim. Quase te pedi em namoro muitas vezes nos últimos dias. Mas talvez não seja a hora certa, talvez eu esteja com medo. Não medo do que eu tô sentindo, não medo do que pode vir a ser, mas medo. Ou algo muito parecido com medo. Talvez medo de admitir pra mim mesma que o tempo importa, que eu quero, hoje, passar o resto da minha vida com você, que, de certa forma, eu já passei a minha vida inteira com você. Porque até o tempo é relativo. Você me cativou de uma forma absurda, de um segundo pro outro, ou de uma vida pra outra. Em momentos assim, eu quase acredito em vidas passadas, em uma ligação que antecede qualquer presente. Porque talvez só isso seja capaz de explicar o que eu sinto por você, o que eu sinto quanto tô perto de você. Eu prometi a mim mesma manter um certo distanciamento de você. Não só de você, mas de todo mundo, por um tempo, pelo menos. Não me envolver demais, não esperar nada, tentar sem um pouco racional e deixar os sentimentos de lado. E eu até acho que tô conseguindo, mas externamente. Internamente, eu tô uma confusão. Me apaixonei por você de uma maneira única, porque toda maneira é única. Mas mesmo assim é uma maneira única que parece ser mais forte, mais certa. Como se eu sentisse, dentro de mim, que é você, e só você. Ou algo do tipo. Talvez eu esteja errada. Eu devo estar errada. Meu sentimentalismo às vezes fala muito mais alto. Tão alto que minha racionalidade tá ficando sem voz. E eu não posso deixar isso acontecer. E não por medo de me machucar, mas por medo de não me machucar. Não faz sentido. Foda-se. Me casaria com você hoje, logo eu que vivo falando que não quero me casar. Dividiria minha vida com você, com todo o prazer do mundo. Mas pra quê? Por que você? Porque eu te amo. Te amo sem motivo, te amo sem por quês, te amo sem medo e com muito medo, te amo porque vivi várias eternidades de segundos, te amo porque te amo, e isso assusta.

Posso?

A vida é feita de contradições. A minha vida, pelo menos. Mas sabe quando você sente e não sabe o que tá sentindo e muito menos como explicar? Me sinto assim sempre. Eu sinto, eu sei. Mas como encaixar o sentimento nas minhas milhares de teorias sem sentido? Amor é algo que dura para sempre. Paixão tem que ter desejo carnal. Amizade não existe, é amor ou não é nada. Mas aí eu me pego em dúvida, porque eu não consigo encaixar tudo que eu sinto em “amor”. Muito menos em “paixão”. Mas o que eu sinto, afinal? Se eu não sei nomear, será que é real? O que eu sinto por você, afinal? Sinto uma vontade incontrolável de ficar do seu lado sempre. Mas só nós duas. Quero me trancar pra sempre num cômodo apertado com você. E não fazer mais nada além de ficar abraçada. Eu quero falar com você sempre. Espero suas mensagens com uma ansiedade que eu não sinto há tempos. Quero chorar sempre que penso na noite de ontem, em como eu saí de lá. Não quero o mundo ao nosso redor. Não quero festas com pessoas estranhas. Não quero aditivos, sensações químicas. Não preciso. Quero você. Quero poder te olhar infinitamente e sentir cada vez mais esse sentimento crescer. Esse sentimento que não tem nome, mas que tá crescendo e que tá me fazendo chorar. Porque nada dura pra sempre. A gente nem começou e eu já tenho certeza de que vamos acabar. Talvez não hoje nem amanhã, mas não vai demorar. Eu sei que não vai demorar. Sei que vou me apaixonar cada vez mais e que um dia tudo vai parar de fazer sentido e eu vou chorar. Porque eu não gosto quando as coisas deixam de fazer sentido. Eu não gosto de mudanças. Não gosto de sentir que as coisas estão fora do meu controle, que eu não posso escolher como vou me sentir, que eu não posso mudar o desfecho das coisas. Quero te ver, te dar um abraço, depois de um tempo te dar um beijo, ir para casa com você, abrir a geladeira quando entrar, tomar um banho, deitar do seu lado e acordar lá no dia seguinte. Quero olhar dentro dos seus olhos, rir das suas piadinhas idiotas, analisar todas as suas feições, quero te dar carinho. Quero te dar amor. Mas quero fazer isso todo dia. Posso?